Segunda-feira, Maio 25, 2009

Era musica... J. G. de Araujo Jorge


E então soprou um vento de ternura intensa. 
E as nuvens se dispersaram e eu vi que meu coração emergia 
como um alto cume de montanha, dourado de sol, 
musicado de pássaros e éguas. 

Olhava teus olhos, tuas mãos, teus cabelos, teu corpo... 
Teu corpo era como um caminho sinuoso por onde saí 
desesperado a procurar-te.

E, de repente, tomei-te nos braços, 
afaguei-te a cintura, 
recolhi-te ao meu peito. 

Teu coração inquieto pulsava 
mais que o córrego das montanhas 
batia asas de pássaro encandeado. 

E de repente saímos livres e felizes, como simples 
animais de Deus 
com a direção dos ventos. 

Faminto, colhi-te como um fruto! 
Sedento, bebi-te como a água! 
Marquei meus dentes em tua carne 
e escorreste pela minha boca, 
pelo meu pescoço, 
pelo meu peito. 

Meus braços foram tuas formas. Minhas mãos te conheceram. 
Desmanchei-te os cabelos, e me perdi. 
Nossas bocas se uniram, e se esqueceram. 

Tatearam meus lábios escalando cumes, 
devassando vales. 

E fiquei em ti, vivo e silencioso, 
como o sangue nas veias, 
como a seiva na raiz.

E desci sobre ti e me entranhei,
como a chuva descendo 
e molhando.

E quando falamos: Era música!

0 Comentarios: