sexta-feira, julho 17, 2009

Mestre - Fernando Pessoa



Mestre, são plácidas

Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza ...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos,tendo
Nem o remorso
De ter vivido.


Fernando Pessoa
como Ricardo Reis em 12/06/1914

6 comentários:

Odessa Valadares disse...

Ricardo Reis é, sem dúvida, o mais perfeito dos heteronômios de Fernando Pessoa. A natureza o inspira e cadapoesia dele é tão perfeita quanto tudo.

Anônimo disse...

Very communicative post

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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