sábado, setembro 17, 2016

A brusca POESIA da mulher amada : Textos I, II e III - Vinicius de Moraes

I

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...

Eles foram vistos caminhando de noite para o amor
– oh, a mulher amada é como a fonte! A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo a mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito? Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios. E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados... 
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias. Pousada no fundo estará a estrela, e mais além. 
Rio de janeiro, 1938

II

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite. E de cujo seio surge a aurora.
A mulher amada é quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros. Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada em seu acúmen.

A mulher amada é o padrão índigo da cúpula e o elemento verde antagônico. 
A mulher amada é o tempo passado no tempo presente no tempo futuro no sem tempo. 
A mulher amada é o navio submerso é o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen. 
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada

E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite outra coisa não é senão o seio da mulher amada que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranquila e trágica é essa que eu chamo pelo nome de mulher amada. Nascitura. Nascitura da mulher amada. É a mulher amada.

A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada. 

É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada! Quem colhe a tempestade? – a mulher amada! Quem determina os meridianos? – a mulher amada! Quem a misteriosa portadora de si mesma? - a mulher amada. 

Talvegue, estrela, petardo nada a não ser a mulher amada necessariamente amada quando! E de outro não seja, pois é ela a coluna e o graal, a fé e o símbolo, implícita na criação. 

Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda o gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.

Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas. Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!
Rio de Janeiro, 1950

III

Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado, minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem mácula, meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubina, Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências e comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.

Eis que se anuncia de modo sumamente grave a vinda da mulher amada, de cuja fragrância já me chega o rastro. 

É ela uma menina, parece de plumas e seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos empós meu canto. 

É ela uma menina. Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes do meu amor em solidão. 

Sim, eis que os arautos da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos para cantar seus réquiens e os falsos profetas a ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras. Mas nada a detém; ela avança, rigorosa em rodopios nítidos criando vácuos onde morrem as aves.

Seu corpo, pouco a pouco abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo como uma escura rosa voltejante surgida de um jardim imenso em trevas.

Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos! Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos! Alvoroçai-me, auroras nascituras!

Eis que chega de longe, como a estrela de longe, como o tempo a minha amada última!
Rio de Janeiro, 1963

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