Sexta-feira, Janeiro 06, 2012

Lembro-me bem do seu olhar - Jose L. Peixoto

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo,
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove

Terça-feira, Novembro 22, 2011

Eras tu a Claridade - Jose L. Peixoto

O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,

como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,

mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,

que eu amava quando imaginava que amava. era a tua

a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.

Era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores

e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.

Muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

Quarta-feira, Setembro 21, 2011

Canção do Amor-Perfeito - Cecilia Meireles

Eu vi o raio de sol
beijar o outono.
Eu vi na mão dos adeuses
o anel de ouro.
Não quero dizer o dia.
Não posso dizer o dono.

Eu vi bandeiras abertas
sobre o mar largo
e ouvi cantar as sereias.
Longe, num barco,
deixei meus olhos alegres,
trouxe meu sorriso amargo.

Bem no regaço da lua,
já não padeço.
Ai, seja como quiseres,
Amor-Perfeito,
gostaria que ficasses,
mas, se fores, não te esqueço.

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'

Domingo, Setembro 04, 2011

Ausencia - Carlos Drummond

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Quinta-feira, Setembro 01, 2011

Cancao do dia de sempre - Mario Quintana

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

Terça-feira, Agosto 30, 2011

A liberdade nunca e real - Leon Tolstoi

Se examinarmos um indivíduo isolado sem o relacionarmos com o que o rodeia, todos os seus atos nos parecem livres. Mas se virmos a mínima relação entre esse homem e quanto o rodeia, as suas relações com o homem que lhe fala, com o livro que lê, com o trabalho que está fazendo, inclusivamente com o ar que respira ou com a luz que banha os objetos à sua roda, verificamos que cada uma dessas circunstâncias exerce influência sobre ele e guia, pelo menos, uma parte da sua atividade. 


E quantas mais influências destas observamos mais diminui a idéia que fazemos da sua liberdade, aumentando a idéia que fazemos da necessidade a que está submetido.

(…) A gradação da liberdade e da necessidade maiores ou menores depende do lapso de tempo maior ou menor desde a realização do ato até a apreciação desse mesmo ato. Se examino um ato que pratiquei a um minuto em condições quase as mesmas em que me encontro atualmente, esse ato parece-me absolutamente livre. 


Mas se aprecio um ato realizado há um mês, ao encontrar-me em circunstâncias diferentes, a meu pesar, se não tivesse realizado esse ato, não existiriam muitas coisas inúteis, agradáveis e necessárias que derivam dele. 


Se me translado com a memória a um ato mais remoto, a um ato de há dez anos ou mesmo mais, então as suas consequências ainda se me apresentarão mais evidentes e ser-me-á difícil representar-me seja o que for, caso aquele ato remoto nunca tivesse existido.

Quanto mais retroceder na minha memória, ou, o que vem a dar na mesma, quanto mais projetar no futuro o meu juízo, tanto mais duvidosos me parecerão os meus raciocínios acerca da liberdade do ato realizado.

Segunda-feira, Agosto 22, 2011

Por que ler NIetzche

Dentre os clássicos da filosofia moderna, Nietzsche talvez seja o pensador mais incômodo e provocativo. Sua vocação crítica cortante o levou ao submundo de nossa civilização, sua inflexível honestidade intelectual denunciou a mesquinhez e a trapaça ocultas em nossos valores mais elevados, dissimuladas em nossas convicções mais firmes, renegadas em nossas mais sublimes esperanças. Essa atitude deriva do que Nietzsche entendia por filosofia.

Para ele, filosofar é um ato que se enraíza na vida e um exercício de liberdade. O compromisso com a autenticidade da reflexão exige vigilância crítica permanente, que denuncia como impostura qualquer forma de mistificação intelectual. Por isso, Nietzsche não poupou de exame nenhum de nossos mais acalentados artigos de fé. O destino da cultura, o futuro do ser humano na história, sempre foi sua obsessiva preocupação. Por causa dela, submeteu à crítica todos os domínios vitais de nossa civilização ocidental: científicos, éticos, religiosos e políticos.

Nietzsche é um dos grandes mestres da suspeita, que denuncia a moralidade e a política moderna como transformação vulgarizada de antigos valores metafísicos e religiosos, numa conjuração subterrânea que conduz ao amesquinhamento das condições nas quais se desenvolve a vida social. Nesse sentido, ele é um dos mais intransigentes críticos do nivelamento e da massificação da humanidade. Para ele, isso era uma conseqüência funesta da extensão global da sociedade civil burguesa, tal como esta se configurou a partir da Revolução Industrial.

Nietzsche se opõe à supressão das diferenças, à padronização de valores que, sob o pretexto de universalidade, encobre, de fato, a imposição totalitária de interesses particulares; por isso, ele é também um opositor da igualdade entendida como uniformidade. Assim, denunciou a transformação de pessoas em peças anônimas da engrenagem global de interesses e a manipulação de corações e mentes pelos grandes dispositivos formadores de opinião.

O esforço filosófico de Nietzsche o levou a se confrontar com as grandes correntes históricas responsáveis pela formação do Ocidente: a tradição pagã greco-romana e a judaico-cristã; e o que resultou da fusão entre as duas.

Ao longo desse seu confronto com o conjunto da herança cultural de nossa tradição, Nietzsche forjou conceitos e figuras do pensamento que até hoje impregnam nosso vocabulário e povoam nosso imaginário político e artístico. Tais são, por exemplo, as noções de Apolo e Dionísio, transformadas em categorias estéticas, os conceitos de vontade de poder, além-do-homem (Übermensch), eterno retorno e niilismo e a figura da morte de Deus.

É impossível se colocar à altura dos principais temas e questões de nosso tempo sem entender o pensamento de Nietzsche. Ateísta radical, ele atribui ao homem a tarefa de se reapropriar de sua essência e definir as metas de seu destino. Dele afirma o filósofo Martin Heidegger: "Nietzsche é o primeiro pensador que, perante a história universal pela primeira vez aflorada em seu conjunto, coloca a pergunta decisiva e a reflete internamente em toda a sua extensão metafísica. Essa pergunta reza: como homem, em sua essência até aqui, está o homem preparado para assumir o domínio da terra?"1

Nesse sentido, Nietzsche é o pensador de nossas angústias, que não poupou nenhuma certeza estabelecida - sobretudo as suas próprias convicções - e desvendou os mais sinistros labirintos da alma moderna. Com a paixão que liga a vida ao pensamento, Nietzsche refletiu sobre todos os problemas cruciais da cultura moderna, sobre as perplexidades, os desafios, as vertigens no fim do século 19. Dessa sua condição, postado entre o final e o início de duas eras, Nietzsche esboçou um quadro que, em todos os seus matizes, nos concerne ainda, na passagem a um novo milênio, em direção a um destino que ainda não se pode discernir.

A despeito de sua visão sombria, Nietzsche tentou ser, ao mesmo tempo, um arauto de novas esperanças. Sua mensagem definitiva - a criação de novos valores, a instituição de novas metas para a aventura humana na história - é também um cântico de alegria. Essa é uma das razões pelas quais o estilo de Nietzsche resulta da combinação paradoxal de elementos antagônicos: sombra e luz, agonia e êxtase, gravidade e leveza.

Isso explica por que, para ele, o riso e a paródia são operadores filosóficos inigualáveis: eles permitem reverter perspectivas fossilizadas. Nietzsche, o impiedoso crítico das crenças canônicas, é também um mestre da ironia. Sua ambição consiste em tornar superfície o que é profundidade, restituir a graça ao peso da seriedade filosófica.

Opositor ferrenho da dialética socrática, Nietzsche reedita, no mundo moderno, o gesto irônico do pai fundador da filosofia ocidental. Decisivo adversário de Platão, sua filosofia talvez possa ser caracterizada como uma inversão paródica do platonismo. Definindo-se como o mais intransigente anticristão, dá, no entanto, à sua autobiografia intelectual, escrita no final de sua vida, o título Ecce Homo ("Eis o Homem") - expressão empregada por Pilatos ao apresentar Jesus a seus algozes, pouco antes da Paixão.

Nietzsche, o filósofo-artista, um poeta que só acreditava numa filosofia que fosse expressão das vivências genuínas e pessoais, vendo na experiência estética uma espécie de êxtase e redenção, é, por isso mesmo, um precursor da crítica a um tipo de racionalidade meramente técnica, fria e planificadora. A despeito da profundidade e da gravidade das questões com que se ocupa, sempre as tratou em estilo artístico, poeticamente sugestivo; só acreditava na autenticidade de um pensamento que nos motivasse a dançar. Ele mesmo imagina sobre sua porta a inscrição:

Moro em minha própria casa
Nada imitei de ninguém
E ainda ri de todo
mestre
Que não riu de si também.2

Sem extravasar os limites dos livros desta série, Folha Explica Nietzsche se propõe a ser uma apresentação geral do homem e do filósofo Friedrich Nietzsche. Seu objetivo é fazer com que o leitor se familiarize com os conceitos, as figuras e o estilo de Nietzsche --não para depois encerrá-los em qualquer câmara da memória, mas sim para despertar seu interesse e estimulá-lo a seguir adiante. Aceitar o desafio de Nietzsche implica, sobretudo, pensar independentemente; e por isso, às vezes, também contra Nietzsche.

1 Heidegger, "Wer ist Nietzsches Zarathustra?"; em: Vorträge und Aufsätze.
Pfullingen: Neske Verlag, 1954; p. 102.


2 Epígrafe de A Gaia Ciência; em:
Nietzsche, Obra Incompleta. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. Col. Os
Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974; p. 195.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u352101.shtml

Sexta-feira, Agosto 19, 2011

A mulher mais bonita do mundo - Jose L. peixoto

Estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita.

Entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro a gaveta, abro a caixa onde está o teu fio de ouro.

Entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu pescoço.

Há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. estás tão bonita hoje. os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

Estás dentro de algo que está dentro de todas as coisas, a minha voz nomeia-te para descrever a beleza. os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

De encontro ao silêncio, dentro do mundo, estás tão bonita é aquilo que quero dizer”

José Luís Peixoto, in ” A Casa, a Escuridão”

Quarta-feira, Agosto 17, 2011

Vale a pena sentir - Fernando Pessoa

Vim aqui para não esperar ninguém,
Para ver os outros esperar,
Para ser os outros todos a esperar,
Para ser a esperança de todos os outros.
Trago um grande cansaço de ser tanta coisa.
E de repente impaciento-me de esperar, de existir, de ser,
Vou-me embora brusco…
Regresso à cidade como à liberdade.

Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir


Fernando Pessoa como Álvaro de Campos

Segunda-feira, Agosto 15, 2011

Ardo - Nietzche

"Sim, sei de onde venho!

Ardo para me consumir.

Aquilo em que toco torna-se luz,

carvão aquilo que abandono.

Sou certamente labareda!"

Friedrich Nietzsche

Sexta-feira, Agosto 12, 2011

200 frases de Friedrich Nietzsche


Dentre os clássicos da filosofia moderna, Nietzsche talvez seja o pensador mais incômodo e provocativo. Sua vocação crítica cortante o levou sua inflexível honestidade intelectual denunciou a mesquinhez e a trapaça ocultas em nossos valores mais elevados, dissimuladas em nossas convicções mais firmes, renegadas em nossas mais sublimes esperanças.
Aqui reunidas 200  idéias desse brilhante pensador compiladas pelo Prince Cristal.
A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida, portanto fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros.
A esperança é o derradeiro mal; é o pior dos males, porquanto prolonga o tormento.
A exigência de ser amado é a maior das pretensões.
A fé é ignorar tudo aquilo que é verdade.
A fé não move montanhas. Na verdade, coloca montanhas onde não há nenhuma.
A grandeza do homem consiste em que ele é uma ponte e não um fim; o que nos pode agradar no homem é ele ser transição e queda.
A idéia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más.
A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança.
A melhor cura para o amor é ainda aquele remédio eterno: amor retribuído.
A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas.
A nossa vaidade gostaria que o que fazemos melhor fosse considerado como aquilo que mais nos custa. Para explicar a origem de certas morais.
A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia.
A principal mentira é a que contamos a nós mesmos.
A recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais.
A sensualidade ultrapassa muitas vezes o crescimento do amor, de forma que a raiz permanece fraca e arranca-se facilmente.
A todos com quem realmente me importo desejo sofrimento, desolação, doença, maus-tratos, indignidades, o profundo desprezo por si, a tortura da falta de auto-confiança, e a desgraça dos derrotados".
A vaidade dos outros só vai contra o nosso gosto quando vai contra a nossa vaidade.
A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.
A vida mais doce é não pensar em nada.
A vida vai ficando cada vez mais dura perto do topo.
A vítima esta sempre alheia ao mal
A vontade é impotente perante o que está para trás dela. Não poder destruir o tempo, nem a avidez transbordante do tempo, é a angústia mais solitária da vontade.
A vontade se superar um afeto não é, em última análise, senão vontade de um outro ou de vários outros afetos.
Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.
Algo que não se pode buscar, nem achar, e talvez tampouco perder. "A alma nobre tem reverência por si mesma...
Amamos a vida não porque estamos acostumados à vida, mas a amar. Há sempre alguma loucura no amor, mas há sempre também alguma razão na loucura.
Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.
Aquele que sabe mandar encontra sempre quem deva obedecer.
Aquele que vive de combater um inimigo tem interesse em o deixar com vida.
Aquilo que não me destrói fortalece-me.
Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.
As convicções são cárceres. Mais inimigas da verdade do que as próprias mentiras.
As mesmas paixões no homem e na mulher são diferentes em seu andamento e é por isso que o homem e a mulher jamais deixam de se desentender.
As mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física.
As paisagens insignificantes existem para os grandes paisagistas; as paisagens raras e notáveis são para os pequenos.
As próprias mulheres, no fundo de toda a sua vaidade pessoal, têm sempre um desprezo impessoal - pela mulher.
As vivências terríveis fazem-nos pensar se o seu protagonista não é, ele próprio, algo de terrível.
Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens.
Com os princípios quer-se tiranizar os hábitos, ou justificá-los ou honrá-los ou injuriá-los ou escondê-los: - dois homens com princípios iguais querem, verosimilmente, atingir com eles algo de fundamentalmente diferente.
Começamos a desconfiar das pessoas muito inteligentes quando ficam embaraçadas.
Como? É o homem apenas um erro de Deus? Ou é Deus unicamente um erro do homem?”Quem “criou” quem? ou seria como se “criou”?
Comparando no seu conjunto homem e mulher pode dizer-se: a mulher não teria engenho para se enfeitar se não tivesse o instinto do papel «secundário» que desempenha.
Culpamos as pessoas das quais não gostamos pelas gentilezas que nos demonstram.
Depois de estar cansado de procurar, aprendi a encontrar. Depois de um vento me ter feito frente, navego com todos os ventos.
Deus está morto: mas, considerando o estado em que se encontra a espécie humana, talvez ainda por um milênio existirão grutas em que se mostrará a sua sombra.
E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a musica.
É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil.
É mais difícil ferir a nossa vaidade justamente quando foi ferido o nosso orgulho.
É mais fácil lidar com uma má consciência do que com uma má reputação.
É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.
E o homem, em seu orgulho, criou Deus, a sua imagem e semelhança.
E os que foram vistos dançando foram julgados insanos pelos que não conseguiam ouvir a música.
É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.
É só dos sentidos que procede toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade.
É terrível morrer de sede no mar. Porque haveis então de salgar a vossa verdade de modo a que não - mate já a sede?
É verdade que se mente com a boca; mas a careta que se faz ao mesmo tempo diz, apesar de tudo, a verdade.
Em certas pessoas, o alegrar-se com um elogio é apenas uma delicadeza do coração - e precisamente o contrário de uma vaidade do espírito.
Em homens duros a intimidade é questão de pudor - e algo de precioso.
Em tempo de paz o homem belicoso ataca-se a si próprio.
Em última análise, amam-se os nossos desejos, e não o objeto desses desejos.
Em uma grande vitória, o que existe de melhor, é que ela tira do vencedor o receio de uma derrota.
Encontra-se sempre, aqui e ali, algum semideus que consegue viver em condições terríveis, e viver vencedor! Quereis ouvir os seus cantos solitários? Escutai a música de Beethoven.
Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse.
Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles...
Eu não sei o que quero ser, mas sei muito bem o que não quero me tornar
Eu não sou um homem, sou um campo de batalha.
Existo, logo penso.
Falar muito de si mesmo pode ser um jeito de esconder aquilo que realmente é.
Falta de amigos - A falta de amigos faz pensar em inveja ou presunção. Há pessoas que devem seus amigos à feliz circunstância de não ter motivo para a inveja.
Faltam as circunstâncias. - Muitas pessoas esperam a vida inteira pela oportunidade de serem boas à sua maneira.
Faz parte da humanidade de um mestre advertir seus alunos contra ele mesmo.
Fazer grandes coisas é difícil; mas comandar grandes coisas é ainda mais difícil.
Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.
Há homens que já nascem póstumos.
Há uma inocência na admiração: é a daquele a quem ainda não passou pela cabeça que também ele poderia um dia ser admirado.
Há uma inocência na mentira que é o sinal da boa fé numa causa.
Levar insidiosamente o próximo a uma boa opinião de nós e, depois, acreditar piamente nessa boa opinião: quem consegue imitar nesta habilidade as mulheres?
Logo que comunicamos os nossos conhecimentos, deixamos de gostar deles suficientemente.
Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados.
Mesmo o mais forte tem seu momento de fatiga.
Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas … Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia...
Muitos são os obstinados que se empenham no caminho que escolheram poucos os que se empenham no objetivo.
Na minha vida ainda preciso de discípulos, e se os meus livros não serviram de anzol, falharam a sua intenção. O melhor e essencial só se pode comunicar de homem para homem.
Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem.
Nada neste mundo consome mais rapidamente um homem que a paixão do ressentimento.
Não basta ter-se talento: é preciso ter-se o vosso assentimento para o possuir, - não é verdade, meus amigos?
Não é a força do sentimento elevado, é a sua duração que faz os homens superiores.
Não é a força, mas a constância dos bons sentimentos que conduz as pessoas à felicidade
Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.
Não é só a razão, mas também a nossa consciência, que se submetem ao nosso instinto mais forte, ao tirano que habita em nós.
Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.
Não há fenômenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenômenos...
Não há outro critério da verdade senão o crescimento do sentimento de poder.
Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.
Não se odeia quando pouco se preza, odeia-se só o que está à nossa altura ou é superior a nós.
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás para atravessar o rio da vida – ninguém, exceto tu, só tu.
No convívio com sábios e artistas facilmente nos enganamos no sentido oposto: não é raro encontrarmos por detrás dum sábio notável um homem medíocre, e muitas vezes por detrás de um artista medíocre - um homem muito notável.
No elogio há mais impertinência do que na censura.
No matrimônio existem apenas obrigações e alguns direitos.
Nós fazemos acordados o que fazemos nos sonhos: primeiro inventamos e imaginamos o homem com quem convivemos - para nos esquecermos dele em seguida.
Nos indivíduos, a loucura é algo raro - mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.
Nossa dor vem da distância entre aquilo que somos e o que idealizamos ser.
Nossos filhos não são nossos. Eles são filhos da vida ansiando pela vida.
Nunca odiamos aos que desprezamos. Odiamos aos que nos parecem iguais ou superiores a nós.
O aforismo, a sentença, nos quais pela primeira vez sou mestre entre os alemães, são formas de «eternidade»: a minha ambição é dizer em dez frases o que outro qualquer diz num livro -, o que outro qualquer «não» diz nem num livro inteiro...
O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas tal como elas não são.
O amor por um só é uma barbaridade: porque se exerce à custa de todos os outros. O mesmo quanto ao amor por Deus.
O amor revela as qualidades sublimes e ocultas do que ama, - o que nele há de raro, de excepcional: nesse aspecto facilmente engana quanto ao que nele há de habitual.
O atrativo do conhecimento seria pequeno se no caminho que a ele conduz não houvesse que vencer tanto pudor.
O castigo foi feito para melhorar aquele que o aplica.
O criminoso não está, muitas vezes, á altura do seu ato: amesquinha-o e difama-o.
O esforço dos filósofos tende a compreender o que os contemporâneos se contentam em viver.
O fanatismo é a única forma de vontade que pode ser incutida nos fracos e nos tímidos.
O fantasioso nega a verdade para si mesmo; o mentiroso apenas para os outros.
O filósofo, como o entendo, é um explosivo terrível na presença do qual tudo está em perigo.
O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo.
O homem chega à sua maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade que uma criança encara uma brincadeira.
O homem é definido como um ser que evolui, como o animal é imaturo por excelência.
O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem, uma corda por cima do abismo.
O homem precisa daquilo que em si há de pior se pretende alcançar o que nele existe de melhor.
O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência.
O homem que vê mal vê sempre menos do que aquilo que há para ver; o homem que ouve mal ouve sempre algo mais do que aquilo que há para ouvir.
O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.
O medo é o pai da moralidade.
O nosso próximo não é o nosso vizinho, mas o vizinho deste» - assim pensam todos os povos.
O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha.
O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.
O que o pai calou aparece na boca do filho, e muitas vezes descobri que o filho era o segredo revelado do pai.
O sábio como astrônomo. - Enquanto sentires as estrelas como algo que está «por cima de ti» não possuis ainda o olhar do homem que sabe.
O sentido do trágico aumenta e diminui com a sensualidade.
O ser refutável não é o menor dos encantos de uma teoria.
O sucesso tem sido sempre um grande mentiroso.
O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso.
Observou-se mal a vida se não se tiver visto também a mão que, de uma maneira especialmente cuidadosa - mata.
Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.
Onde amor e ódio não concorrem ao jogo, o jogo da mulher torna-se medíocre.
Onde não intervém o amor ou o ódio, a mulher sai-se mediocremente.
Os advogados de um criminoso só raras vezes são suficientemente artistas para aproveitar em favor do réu a terrível beleza do seu ato.
Os erros de grandes homens... são mais fecundos que as verdades de pequenos.
Os grandes intelectuais são céticos.
Os homens graves e melancólicos ficam mais leves graças ao que torna os outros pesados, o ódio e o amor, e assim surgem de vez em quando à sua superfície.
Os leitores extraem dos livros, consoante o seu caráter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o seu veneno.
Os métodos são as verdadeiras riquezas.
Os poetas são impudicos para com as suas vivências: exploram-nas.
Para a maioria, quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!
Para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho.
Para ver muita coisa é preciso despregar os olhos de si mesmo
Perante nós mesmo todos fingimos ser mais ingênuos do que somos: é deste modo que descansamos dos nossos semelhantes.
Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!
Perto do Sol há incontáveis corpos escuros a serem deduzidos tais que nunca chegaremos a ver.
Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde.
Quando se amarra bem o próprio coração e se faz dele um prisioneiro, pode-se permitir ao próprio espírito muitas liberdades.
Quanto mais abstrata for a verdade que queres ensinar, mais tens que seduzir os sentimentos a seu favor.
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.
Que posso eu fazer se o poder gosta de andar com pernas tortas?!
Quem atinge o seu ideal, ultrapassa-o precisamente por isso.
Quem for fundamentalmente um mestre, apenas toma a sério tudo o que se relaciona com os seus discípulos, - incluindo a si próprio.
Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Quem não sabe encontrar o caminho para o «seu» ideal vive de um modo mais leviano e insolente que o homem sem ideal.
Quem se despreza a si próprio não deixa mesmo assim de se respeitar como desprezador.
Quem só tem o espírito da história não compreendeu a lição da vida e tem sempre de retomá-la. É em ti mesmo que se coloca o enigma da existência: ninguém o pode resolver senão tu!
Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez - a si próprio?
Querer a verdade é confessar-se incapaz de a criar.
Saber é compreendermos as coisas que mais nos convém.
Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras.
Se não se tem um bom pai, é preciso arranjar um.
Se os esposos não vivessem juntos, haveria mais matrimônios felizes.
Se se quer ser alguém, deve venerar-se a própria sombra.
Se tem caráter, tem-se também uma experiência típica própria, que sempre retorna.
Se temos que mudar de opinião a respeito de alguém levamos-lhe muito a mal o incômodo que assim nos causa.
Se um homem tiver realmente muita fé, pode dar-se ao luxo de ser cético.
Sem a música, a vida seria um erro.
Ser mau é tão insensato e auto-destrutivo quanto ser bom.
Sim, sei de onde venho! Insatisfeito com a labareda ardo para me consumir! Aquilo em que toco torna-se luz. Carvão aquilo que abandono. Sou certamente labareda!
Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos.
Somos muito injustos com Deus. Nem sequer Lhe permitimos pecar.
Sou demasiado orgulhoso para acreditar que um homem me ame: seria supor que ele sabe quem sou eu. Também não acredito que possa amar alguém: pressuporia que eu achasse um homem da minha condição.
Talvez eu e meu corpo formemos uma conspiração pelas costas de minha própria mente.
Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.
Temos a arte para não morrer da verdade.
Ter fé é dançar na beira do abismo.
Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da nossa moralidade.
The happiness of man is: I will. The happiness of woman is: he wills.
There are no facts, only interpretations.
Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores.
Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois.
Tudo é precioso para aquele que foi, por muito tempo, privado de tudo.
Um homem de gênio é insuportável se, além disso, não possuir pelo menos duas outras qualidades: gratidão e asseio.
Um político divide os seres humanos em duas classes: instrumentos e inimigos.
Um procura um parteiro para os seus pensamentos, outro alguém a quem possa ajudar: é assim que nasce uma boa conversa.
Uma alma que se sabe amada, mas que por sua vez não ama, denuncia o seu fundo: - vem á superfície o que nela há de mais baixo.
Uma pessoa continua a trabalhar porque o trabalho é uma forma de diversão. Mas temos de ter cuidado para não deixarmos a diversão tornar-se demasiado penosa.
Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.
Uma visita ao hospício mostra que a fé não prova nada.

Quinta-feira, Agosto 11, 2011

Talking to the moon - Bruno Mars

O teu caminho - Nietzche

Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida, ninguém, exceto tu, só tu.


Existem, por certo, atalhos sem números, pontes e semi-deuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.


Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.


Onde leva?


Não perguntes, segue-o.

Quarta-feira, Agosto 10, 2011

Explicacao da Eternidade - Jose L. Peixoto



Devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

Os assuntos que julgamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

Por si só, o tempo não é nada.
A idade de nada é nada.
A eternidade não existe.

No entanto, a eternidade existe.

Os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
Os instantes do teu sorriso eram eternos.
Os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

Foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in “A Casa, A Escuridão”