Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Bela e o Dragao - Mario Quintana


As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos...
Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESDENHOSA.

E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau.

E no dia em que chamares a um dragão de JOLI, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...



[Mario Quintana; Sapato Florido, 1948]

Catastrofe - Mario Quintana


O meu esporte único é a Luta corpo a corpo com o meu Anjo da Guarda.

Lutamos tanto pelo que queremos

Que no final ficaremos redondamente mortos no chão,

Para maior alívio de Nosso Senhor,

Para sempre livre de nós dois!



[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Insensatez - Ademir A. Bacca


Eu navego
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.

Nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

A uma mulher amada - Safo

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.

(de "Clássicos do erotismo, vol. 2")

O fogo que na branda cera ardia - Camoes


O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dous ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
A apagar seus ardores e tormentos
Na vista de que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela neve
Que queima corações e pensamentos.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

Implacavel fronteira - Nelson Rodrigues


A prostituta só enlouquece excepcionalmente.
A mulher honesta, sim, é que,
devorada pelos próprios escrúpulos,
está sempre no limite,
na implacável fronteira.

Nelson Rodrigues

Terça-feira, Novembro 03, 2009

Mudam-se - Luis de Camoes


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já foi coberto de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luis de Camões

Sábado, Outubro 24, 2009

Anjos ou deuses - Fernando Pessoa


Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
a visão perturbada de que acima
de nós e compelindo-nos
agem outras presenças.

Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,
Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.

Fernando Pessoa como Ricardo Reis

Sabio - Fernando Pessoa


Sábio é o que se contenta
com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos,
ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer
que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.

E ele espera, contente
quase e bebedor tranqüilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.

Fernando Pessoa como Ricardo Reis

Terça-feira, Setembro 29, 2009

A Flor do Sonho - Florbela Espanca


A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim! …
Milagre… fantasia… ou, talvez, sina…

Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

Florbela Espanca

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Por que me falas nesse idioma? - Cecilia Meireles


Por que me falas nesse idioma?


perguntei-lhe, sonhando.


Em qualquer língua se entende essa palavra.


Sem qualquer língua.


O sangue sabe-o.


Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.


Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.


Morte, morte.


Levamos toda a vida morrendo em surdina.


No trabalho,

no amor,

acordados,

em sonho.

A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.

Sábado, Setembro 26, 2009

Chega de saudade - Vinicius de Moraes


Vai minha tristeza,
e diz a ela que sem ela não pode ser,
diz-lhe, numa prece
Que ela regresse,
porque eu não posso mais sofrer.
Chega, de saudade
a realidade, É que sem ela não há paz,
não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim,
não sai de mim,
não sai

Mas se ela voltar,
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca,
dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim,
colado assim,
calado assim
Abraços e beijinhos,
e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
de você viver sem mim.

Não quero mais esse negócio
de você longe de mim...

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Preparacao para a Morte - Manuel Bandeira

A vida é um milagre.

Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.

O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.

O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.

A memória é um milagre.

A consciência é um milagre.

Tudo é milagre.

Tudo, menos a morte.

Bendita a morte,
que é o fim de todos os milagres!


Manuel Bandeira

Oracao Celta


I

Que jamais, em tempo algum,
o teu coração acalente ódio.

Que o canto da maturidade
jamais asfixie a tua criança interior.

Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.

Que as perdas do teu caminho
sejam sempre encaradas como lições de vida.

Que a musica seja tua companheira
de momentos secretos contigo mesmo.

Que os teus momentos de amor contenham a magia
de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis
olhando a luz da vida em cada amanhecer.

Que cada dia seja um novo recomeço,
onde tua alma dance na luz.

Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas
de tua passagem em cada coração.

Que em cada amigo o teu coração faça festa,
que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.

Que em teus momentos de solidão e cansaço,
esteja sempre presente em teu coração
a lembrança de que tudo passa e se transforma,
quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente,
para que tu percebas a ternura invisível,
tocando o centro do teu ser eterno.

Que um suave acalento te acompanhe, na terra ou no espaço,
e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.

Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!

Que os teus pensamentos e os teus amores,
o teu viver e a tua passagem pela vida,
sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.

Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto,
viajando eternamente no centro do teu ser.

Que este amor transforme os teus dramas em luz,
a tua tristeza em celebração,
e os teus passos cansados
em alegres passos de dança renovadora.

Que jamais,
em tempo algum,
tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.

Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!

II

Que a estrada se abra à sua frente,

Que o vento sopre levemente às suas costas,

Que o sol brilhe morno e suave em sua face,

Que a chuva caía de mansinho em seus campos...

E, até que nos encontremos de novo,

Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.

III

Que despertes para o mistério de estar aqui
e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.

Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.

Que respondas ao chamado do teu Dom
e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.

Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante
e que a ansiedade jamais te ronde.

Que a tua dignidade exterior
reflita uma dignidade interior da alma.

Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos
que não buscam atenção.

Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.

Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada
tecida em torno do cerne do assombro.

Terça-feira, Setembro 22, 2009

E facil trocar as palavras, Dificil e interpretar os silencios!


É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Desconheco o autor, mas em diversos lugares é erradamente atribuído a Pessoa.
Homenagem a Primavera...

De volta apos uma pequena ausencia





Sobre a poeira que te cobre o peito,
deixo...
o meu cartão de visita
o meu nome
profissão
morada
telefone...

Beijos do Prince

Sexta-feira, Agosto 28, 2009

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo - Pessoa


Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do Sol)

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

Fernando Pessoa como Ricardo Reis
Agradecimento a Deus por tudo de bom que me é concedido.

Terça-feira, Agosto 18, 2009

Sensualidade, Erotismo ou Pornografia...


Lendo crônicas sobre erotismo e sensualidade pude perceber como este é um tema confundido e todo preconceito normalmente reprime do simples ao complexo.

Como este blog vai do simples ao complexo e não tem a pretensão do puritanismo, mistura tudo, com o único objetivo de agradar o leitor sem a intenção de chocar ou muito menos inibir qualquer desejo. Tenho a grata sensaçao de agradar um leitor eclético.

A SENSUALIDADE traduz a harmonia com cada parte do nosso corpo com seu papel no mundo, com o modo de se relacionar consigo mesmo e com o sexo oposto. O EROTISMO está relacionado com aquilo que é explícito com intenção meramente exibicionista . A PORNOGRAFIA é a representação, de cenas ou objetos obscenos destinados a um público.

Em outras palavras, a sua bela vizinha tem uma sensualidade implícita, o erotismo discreto e a pornografia explicita.

Uma vez feita a tentativa de explicar vou me valer de uma cronica muito bem escrita e de fácil leitura que transcrevo na íntegra para os meus leitores.

Os créditos são do autor Marcelo Spalding que publicou na internet em 06/2007.

Photobucket


Minha vó é uma grande figura: entre outras de suas tiradas, diz que se soubesse que ficaria viúva tão cedo (em torno dos 25) não teria casado virgem e teria aproveitado bem mais. Isso ela diz hoje, num tempo em que falar de sexo é não apenas comum como aconselhável, num tempo em que seus netos – e netas – dormem com os namorados em casa, na mesma cama. Naturalmente nem sempre foi assim, muito pelo contrário, ainda em meados do século XX temas como masturbação e bissexualismo eram considerados tabus, enquanto outros como pedofilia permaneciam ocultos sob um pacto de silêncio.

Hoje, e cada vez mais, sexo é um tema tão em voga (ainda que tão mal tratado) que eu penso que logo abrirá uma faculdade de sexologia: sim, se há faculdade para se estudar a literatura, a música, há faculdade para se estudar a estatística, a publicidade, por que não para estudar o sexo? Não falo em psicanálise nem em pedagogia sexual, falo em uma abordagem multidisciplinar que aborde o sexo de forma séria, investigando-o, levantando véus e mesmo alertando para os perigos de um hedonismo sem limites.

Mas estou abusando das preliminares, não quero broxar meu leitor: o assunto aqui é sexo e literatura. Muito antes do cinema, a literatura já rompeu diversas vezes com o status quo e recheou suas páginas de sensualidade, erotismo, pornografia. De Sade a Flaubert – sim, Flaubert, quem mais excitante que a Madame Bovary? –, de Bocage a José de Alencar – quem mais excitante que Iracema? –, a sexualidade tem sido tema constante seja como protagonista seja como condutora silenciosa da história. Presença que não poderia deixar de se acentuar na contemporaneidade, quando os clipes musicais, a publicidade e a novela das oito exploram o tema quase ao limite da banalidade, desafiando a quem queira manter o erotismo sem desbancar para a vulgaridade.

A este desafio se propôs o gaúcho Elizário Goulart Rocha em seu romance de estréia, Silêncio no Bordel de Tia Chininha (Letras Brasileiras, 2006, 120 p.). Publicado em 2001, ganha agora uma belíssima segunda edição da Letras Brasileiras, que, aliás, vem chamando a atenção do mercado editorial do sul deste Brasil.

O bordel, sem dúvidas, está no imaginário de nove entre dez homens, tenha ele freqüentado ou não algo parecido com um bordel literário: é que o bordel literário é recheado de mulheres lindas, disponíveis, alegres; fica num lugar distante, exótico, até, e não tem a exploração absurda das sofisticadas casas noturnas das capitais modernas: tanto as meninas quanto os clientes são tratados com respeito. Eis o cenário.

Mas não espere de Elizário um romance pornográfico, de uma pornografia barata, aqui estamos falando primeiro em literatura, depois em sensualidade. O conflito que movimenta a história é o eterno dilema dos retirantes: Ataliba, casado e pai de cinco filhos, diz que vai tentar a vida no Rio de Janeiro e abandona sua família à própria sorte. Jovita, bela mulher de 24 anos, carola o suficiente para achar que sexo é pecado, que desejo é pecado, vê-se obrigada a abandonar a casa onde mora antes que seja despejada e procura a sogra, Tia Chininha, dona do bordel mais respeitado da cidade. A sogra acolhe a mulher e os “ranhentinhos”, como os chama o narrador, mas a eles reserva o quarto dos fundos onde devem permanecer durante toda a noite em completo silêncio, sem sair dali por nenhum motivo, nem para fazer xixi ou cocô.

É desse encontro entre a velha dona de bordel e a jovem menina reprimida que nasce a história, daí que emergem os conflitos, os desejos. Jovita tem “os peitos arrepiados” e sente “o roçar do lençol”. Não é indiferente aos gemidos do salão principal, aos corpos esculturais das meninas preferidas e nem ao corpo em formação da filha, Camila Luciane.

“Jovita andava sentindo uma coisa estranha. Devia sentir saudade, muita saudade, mas não sentia. Devia achar insuportável a falta do marido, mas não achava. Devia ficar constrangida por andar tão à vontade num lugar daqueles, e às vezes à vontade mesmo, de mini-blusa que ficava suspensa abaixo dos seios, que marcava os mamilos e os excitava ainda mais, não à noite que a coragem não era tanta, mas de dia, mesmo assim, as calças justas, às vezes sem calcinhas, porque tinha poucas, e quando chovia não secavam, e o roçar do jeans, quem diria, agora até de jeans andava, dê-lhe a excitá-la, mas não ficava constrangida. Os elogios de Laura Melina, agora simplesmente Mel, e Isabel, agora simplesmente Bel, eram capazes de satisfazê-la tanto quanto os melhores galanteios masculinos que já ouvira. Não tinha qualquer intenção de gostar de mulher, o que é que é isso, pelamordedeus, homem é coisa muito boa, mas elogio é ainda melhor.”

Eis um trecho de singular sensualidade de uma história de singular sensualidade em que a todo instante o leitor vê-se excitado, de fato e com o desenrolar dos acontecimentos, excitação essa que nunca chegará ao êxtase, pois o narrador mantém com rédeas firmes o rumo de sua história e interrompe algumas cenas potencialmente eróticas antes que elas se consumam, cabendo ao leitor imaginá-las e inventá-las a partir de seus fetiches.

Jovita, aliás, é filha do fetiche. Sempre desconfio quando homens escrevem sobre a sexualidade de mulheres, há sempre ali muito mais um desejo masculino do que uma verdade feminina, e Jovita é uma jovem de peitos duros louca para saciar desejos profundos, que anda com poucas roupas e repara nas outras meninas, ou seja, um desejo masculino. Aliás, há outra personagem que cresce com o passar das páginas, ou melhor, com o passar dos dias, que seria uma espécie de neta do fetiche, posto que é a filha “de coxas grossas e pelinhos loiros” de Jovita.

Um leitor que tenha se baseado simplesmente na capa, em que vemos uma bela e jovem mulher deitada, nua e possivelmente se masturbando, com a palavra Bordel em destaque, talvez não chegue ao final do livro. Este leitor espera pornografia, e o que temos, já foi dito, é erotismo, é o jogo da sensualidade. Como diz Barthes em O Prazer do Texto, o que seduz é a encenação do aparecimento e desaparecimento, não a total nudez.

Portanto é para um leitor experimentado, iniciado e apreciador não apenas das generosas formas do corpo humano mas também da beleza estética da literatura que Silêncio no Bordel de Tia Chininha foi escrito. Leitores como Eduardo Bueno e Deonísio da Silva, o primeiro que saúda o romance na orelha e o segundo que tem nessa segunda edição publicada como prefácio uma crítica que escreveu a época do lançamento, crítica em que qualifica a obra como “forte candidato a um dos melhores romances deste alvorecer de século”. Se é para tanto ou não, depende de cada leitor. No final das contas julgar um livro é como julgar uma mulher: desde que não sejam notoriamente mal feitos, a beleza e a qualidade estão muito mais nos olhos de quem vê.

Marcelo Spalding
Porto Alegre, 5/6/2007

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Consolo na Praia


Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.



Carlos Drummond de Andrade

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Poema da Purificacao - Drummond


Depois de tantos combates

o anjo bom matou o anjo mau

e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas

de um sangue que não descorava

e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube

dizer de onde tinha vindo

apareceu para clarear o mundo,

e outro anjo pensou a ferida

do anjo batalhador.


Carlos Drummond de Andrade

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Nao tenho ambicoes nem desejos - Fernando Pessoa


Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho.
...

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
...
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar...
...

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
...

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Uma das poesias mais inspiradoras do Pessoa.

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

Soneto da Saudade - Guimaraes Rosa


Quando sentires a saudade retroar
Fecha teus olhos e verá o meu sorriso.
E eternamente te direi a sussurrar...
O nosso amor a cada instante está mais vivo!

Quem sabe ainda vibrará em teus ouvidos
Uma voz macia a recitar muitos poemas...
E te expressar que esse amor em nós ungido
Suportará toda distância sem problemas...

Quiçá, teus lábios sentirão um beijo leve
Como uma pluma a flutuar por sobre a neve,
Como uma gota de orvalho indo ao chão.

Lembrar-te-ás toda a ternura que expressamos,
Sempre que juntos, a emoção que partilhamos...

Nem a distância apaga a chama da paixão.

Segunda-feira, Julho 27, 2009

A minha dor - Florbela Espanca


A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve…ninguém vê…ninguém…


Florbela Espanca

Domingo, Julho 26, 2009

O rio - Vinicius de Moraes


Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.
Um rio nasceu.

Vinicius de Moraes

Kiss from a Rose - Seal

Beijo de uma Rosa!



Costumava existir uma torre cinza sozinha no mar.
Você se tornou a luz no meu lado escuro.
O amor me lembrou uma droga, me eleva o bastante para curar

Mas você sabia, que quando neva os meus olhos se tornam maiores,
e a luz que vc emite pode ser vista...

Querida, Eu comparo você ao beijo de uma rosa na sepultura
Quanto mais eu tenho você...
Mais estranho parece
E agora que a sua rosa desabrochou
A luz acerta a escuridão na sepultura

Existe tanta coisa que um homem pode dizer a você,
tanto que ele pode dizer
Você me lembra, meu poder, meu prazer, minha dor...
Querida!!!
Para mim você é como um velho vício que eu não posso negar...
Você não me dirá se isso eh saudavel, querida?

Eu tenho sido beijado por uma rosa sobre a sepultura.
Eu tenho sido beijado por uma rosa (na sepultura).
..(Eu deveria cair, deixar tudo isso ir embora)
Tenho sido beijado por uma rosa na sepultura.

Agora que sua rosa desabrochou.
A luz acerta a escuridão nas cinzas .

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Delirio - Cintia Melo

Mergulho profundo
no mundo perfeito
nas lisas escamas
das damas de minha alma

Derrama no fogo pálido
no hálito divino
de cheiro doce
de tua boca
a oca mensagem

É delírio!
Absorvo a ira
da tua ausência
inexistência
de tua devassa vida.

Cintia é uma amiga poeta de muito talento.

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Mestre - Fernando Pessoa


Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranqüilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza ...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranqüilos,tendo
Nem o remorso
De ter vivido.


Fernando Pessoa como Ricardo Reis em 12/06/1914

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Inconstancia - Florbela Espanca


Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…


Florbela Espanca

Sexta-feira, Junho 26, 2009

O tempo nao para - Cazuza

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Quarta-feira, Junho 24, 2009

O Bau - Mario Quintana


Como estranhas lembranças de outras vidas,

Que outros viveram, num estranho mundo,

Quantas coisas perdidas e esquecidas

No teu baú de espantos… Bem no fundo,

Uma boneca toda estraçalhada!

(isto não são brinquedos de menino…

alguma coisa deve estar errada)

mas o teu coração em desatino

te traz de súbito uma idéia louca:

é ela, sim! Só pode ser aquela,

a jamais esquecida Bem-Amada.

E em vão tentas lembrar o nome dela…

E em vão ela te fita… e a sua boca

Tenta sorrir-te mas está quebrada!


Quadro de Leonardo da Vinci - Leda and the swan

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Paradoxo da verdade - Tao te king - Lao-Tse

Hoje comemoramos 3 anos do PRINCE CRISTAL


Quem demanda a perfeiçao
parece ser imperfeito.

Embora a sua oculta plenitude
plenifique todas as vacuidades.

Quem possui verdadeira plenitude
É inesgotavel
Por mais que se esgote.

Quem anda direito,
parece torto.

Grande habilidade parece inabilidade.
Arte genuína
parece mediocridade.

Movimento supera o frio.

Quietação vence o calor.

O que é puro e verdadeiro
sempre orienta o mundo.

Lao-Tse da obra-prima Tao te king


Tudo que é do mundo da qualidade é ignorado pelo mundo das quantidades.
O cego acha normal a escuridão o anormal a luz.

O doente que nunca conheceu saúde pode achar normal a doença e anormal a saúde.
Portanto a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens.

As grandes verdades quase sempre aparecem em forma de paradoxos.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

Se alguma vez, nos saloes de um palacio - Baudelaire


Se alguma vez, nos salões de um palácio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, 


perguntai ao vento, a vaga, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala,

perguntai-lhes que horas são; e o vento a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio, vos responderão: São horas de vos embriagardes!

Para não serdes escravos martirizados do tempo,
embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Mas de quê? 

De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.

Mas embriagai-vos! Deslumbrai-vos!

Terça-feira, Maio 26, 2009

Vai alta no ceu a lua da Primavera - Pessoa


Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim 
uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; 
e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, 
andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos
 ver-te colher flores.

Eu já te vejo amanhã a colher flores
 comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã 
e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.



Fernando Pessoa como Alberto Caieiro

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Monica Bellucci - Malena

São tão belos os teus seios!
no toque de suas mãos, 
que me provoca pontudos anseios ...

Uma das cenas do filme Malena para provocar, com muita sensualidade.
Belíssima Monica Bellucci .
Prince

Era musica... J. G. de Araujo Jorge


E então soprou um vento de ternura intensa. 
E as nuvens se dispersaram e eu vi que meu coração emergia 
como um alto cume de montanha, dourado de sol, 
musicado de pássaros e éguas. 

Olhava teus olhos, tuas mãos, teus cabelos, teu corpo... 
Teu corpo era como um caminho sinuoso por onde saí 
desesperado a procurar-te.

E, de repente, tomei-te nos braços, 
afaguei-te a cintura, 
recolhi-te ao meu peito. 

Teu coração inquieto pulsava 
mais que o córrego das montanhas 
batia asas de pássaro encandeado. 

E de repente saímos livres e felizes, como simples 
animais de Deus 
com a direção dos ventos. 

Faminto, colhi-te como um fruto! 
Sedento, bebi-te como a água! 
Marquei meus dentes em tua carne 
e escorreste pela minha boca, 
pelo meu pescoço, 
pelo meu peito. 

Meus braços foram tuas formas. Minhas mãos te conheceram. 
Desmanchei-te os cabelos, e me perdi. 
Nossas bocas se uniram, e se esqueceram. 

Tatearam meus lábios escalando cumes, 
devassando vales. 

E fiquei em ti, vivo e silencioso, 
como o sangue nas veias, 
como a seiva na raiz.

E desci sobre ti e me entranhei,
como a chuva descendo 
e molhando.

E quando falamos: Era música!

Domingo, Maio 24, 2009

Jardim interior - Mario Quintana


Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar sozinha
entre o vermelho dos cravos.

O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono…
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.





Mário Quintana
Claude Monet, The Artist's Garden at Giverny, 1900

Sexta-feira, Maio 08, 2009

Calunia - Mario Quintana


Sorri com tranquilidade

Quando alguém te calunia.

Quem sabe o que não seria

Se ele dissesse a verdade…



Mário Quintana

Quarta-feira, Maio 06, 2009

O amor e paciente

Terça-feira, Maio 05, 2009

Sexta-feira a noite - Marina Colasanti


Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

Erupcao - Anais Nin


O ímpeto de crescer e viver intensamente,
foi tão forte em mim, que não consegui resistir a ele.
Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional!
É louca e cheia de mágoa.

Mas não quero viver comigo mesma.
Quero paixão, prazer, barulho, 
bebedeira, e todo o mal.
Quero ouvir música rouca, 
ver rostos, roçar em corpos,
beber um Benedictine ardente.
Quero conhecer pessoas perversas, 
ser íntima delas.
Quero morder a vida, 
e ser despedaçada por ela.

Eu estava esperando.
Esta é a hora da expansão, 
do viver verdadeiro.

Todo o resto foi uma preparação.
A verdade é que sou inconstante,
com estímulos sensuais em muitas direções.

Fiquei docemente adormecida por alguns séculos,
e entrei em erupção sem avisar.

Texto de Anais Nin
Quadro " A origem do mundo" de  Gustave Coubert -1866