terça-feira, janeiro 08, 2013

Cancao do Amor-Perfeito - Cecilia Meireles


Canção do Amor-Perfeito

O tempo seca a beleza. 
seca o amor, seca as palavras. 
Deixa tudo solto, leve, 
desunido para sempre 
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade, 
seca as lembranças e as lágrimas. 
Deixa algum retrato, apenas, 
vagando seco e vazio 
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo 
e suas velhas batalhas. 
Seca o frágil arabesco, 
vestígio do musgo humano, 
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo 
com suas conquistas áridas. 
Esperarei que te seque, 
não na terra, Amor-Perfeito, 
num tempo depois das almas.

Cecilia Meireles

terça-feira, novembro 06, 2012

Nao deixe o amor passar - Carlos Drummond


Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.

Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida:

O AMOR.



Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, outubro 16, 2012

Sultans of Swing - Dire Straits

Em Londres tudo lembra essa música. O Dire Straits gravou e lançou seu primeiro e auto-entitulado álbum em 1978, inicialmente no Reino Unido, para após se espalhar pelo resto do mundo. O single Sultans of Swing os lançou para o sucesso ... muito ritmo e uma guitarra acústica que para mim foi a melhor e mais original que já tivemos. Realmente eles foram os Sultões do Swing! Vale muito ver este vídeo e apreciar o solo de guitarra do Mark Knopfler.


Você sente calafrios na escuridão
Está chovendo no parque mas por enquanto
Ao sul do rio você para e presta atenção
Uma banda está tocando Dixie várias vezes
Você se sente bem quando escuta aquela música tocar.

Você chega perto mas não vê muitos rostos
E vai saindo da chuva para escutar o jazz tocar
Muitos músicos competem outros lugares
Mas não são muitos "cornos" que podem fazer aquele som
a maneira do baixo-sul,
a maneira do baixo sul da cidade de Londres.




Você repara no guitarrista George ele sabe todos os acordes
Sinto que ele é bem afinado e não quer fazer choro ou cantar
Uma velha guitarra é tudo que ele pode oferecer
Quando ele fica embaixo das luzes para tocar suas coisas
E Harry não se importa se não conseguir cumprir sua cena
Ele diariamente é um trabalhador está fazendo tudo certo
Ele pode tocar em cabarés como ninguém
Reservando especialmente sexta à noite.
Com os Sultões com os Sultões 
do swing.

E uma turma de jovens garotos estão zoando na esquina
Bêbados e vestidos em seus melhores casacos marrons e seus calçados plataforma
Eles não dão importância à nenhuma banda tocando trumpete
Isso não é o que eles chama rock and roll.
E os sultões tocam Creole.

E então o homem ele se estica até o microfone
E diz finalmente está na hora do sino tocar
Obrigado boa noite agora é hora de irmos para casa
Ele rapidamente diz mais uma coisa:
Nós somos os Sultões do swing
.


Eu Simplesmente Amo-te - Pablo Neruda


Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde.

Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: 

eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, 

onde não existe eu ou tu, 

tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, 

tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se. 


Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

quarta-feira, setembro 19, 2012

Recado aos amigos distantes - Cecília Meireles


Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.


Cecília Meireles, in 'Poemas (1951)'

domingo, setembro 16, 2012

Desejos a você - Carlos Drummond


Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.


Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.




Texto de Carlos Drummond de Andrade
É o desejo do Prince para você...

terça-feira, setembro 11, 2012

Me leva - Mario Quintana

Me leva...por caminhos de amor e prazer
Se inflame na chama do meu corpo


Me sufoca
Me enrosca
De forma natural
se entregue



Me Pega
Me laça
Me abraça
Vem me induzir aos seus anseios e aos meus desejos tão loucos
que aos poucos vão nos consumindo
de tanto
amor e prazer

Eu quero seu amor a qualquer preço
Quero que você me tenha por inteiro.
Quero seus beijos ardentes, tão doces... tão quentes...
e me embriagar no perfume do seu corpo
para que possamos viajar nesse
amor tão bonito.

quarta-feira, setembro 05, 2012

Eu escrevi um poema triste - Quintana

Eu escrevi um poema triste 
E belo,
apenas da sua tristeza.



Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…


Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,



Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!



Mário Quintana
significativa mensagem pode nos trazer essa poesia
Beijos do Prince

Se eu fosse um padre - Quintana


Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,


não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,


Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!


Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Mario Quintana

segunda-feira, setembro 03, 2012

8MM2 - Sexo e Suspense - 2005

8MM2 – ano 2005

Este filme é uma boa dica para assistir a dois ... Trata-se de um suspense com cenas de sexo muito sensuais e sem vulgaridade.

David, um aspirante a político e a sua noiva Tish, filha do senador que o promove, passam um final de semana num hotel onde conhecem uma jovem modelo. Acabam se envolvendo num relacionamento de sexo a três e são secretamente fotografados.

Inicia-se então uma desesperada corrida atrás do chantagista que está exigindo uma quantia exorbitante pelos negativos.

Em meio a um sórdido cenário no submundo dos shows de strip-tease, clubes de nudismo e sexo ao vivo pela internet, David pode vir a perder tudo.

Mas quando a tentativa de chantagem acaba em assassinato e David é raptado, Tish deve arranjar US$ 5 milhões para o resgate ou a carreira uma vez promissora de seu noivo, e sua vida, podem acabar subitamente.

O final é surpreendente!

terça-feira, agosto 28, 2012

A masculinizacao da mulher

A emancipação feminina na sociedade ocidental teve diversos aspectos positivos no campo dos direitos e oportunidades e a mulher conquistou em décadas o espaço que lhe foi negado durante séculos. Todavia, frente a tantas conquistas, parece que estão perdendo um bem preciosíssimo, que as diferem das demais criaturas: as mulheres estão perdendo a sua feminilidade. Falo da masculinização da mulher, na atitude, no comportamento, na sexualidade e ate no jeito de se vestir. Longe de querer criar com esta crônica uma polemica, me chama atenção o número de mulheres que se masculinizam e sofrem por não encontrarem mais o "ideal romântico" ou a felicidade nesse novo papel.

As mulheres na década de 60-70 queimaram sutiãs, fizeram manifestações, piquetes, protestos e conquistaram muitos direitos. A fim de competir com o homem e conquistar seu merecido espaço no mercado de trabalho e na sociedade, a mulher teve de se “travestir” de homem, abrir mão de sua essência e se apossar das armas do homem, fazendo-se assim, tão dura e agressiva quanto ele.

Defendem as feministas, terem conseguido vitórias e sucesso, garantias e direitos para mulher.  É verdade, eu concordo, mas ainda defendem que a mulher foi completamente desviada da sua essência para um padrão criado pelas revistas, cinema e moda onde passou a representar o papel do ideal masculino de beleza. Seria mesmo isso? ou na verdade os padrões sempre existiram e mudaram com o tempo? A meu ver o padrão atual oscila entre a mulher cabide(entenda esquelética) e a bombada(entenda musculosa) que reforça o lado da masculinização visual.

Diante deste cenário comecei a perceber diversos cursos ensinando a mulher recuperar a essência da feminilidade. Isso virou um negócio, uma moda. Nas mais diversas áreas, vários profissionais vem tentando reensinar as mulheres a recuperar a característica perdida: curso de auto-ajuda para encontrar a face oculta da Deusa (leia-se comportamentos femininos inspirados nas Deusas mitológicas), cursos de danças sensuais, strip-tease e aulas de maquiagem inspirada em tradições tribais e hindu. Em quase todos os cursos as inspirações vem de antigas fontes orientais ou tradições ancestrais. Não questiono a validade destes cursos, mas ele atingirão apenas uma pequena parcela ou criarão mais confusão neste processo de mudança de comportamento das sociedades. O ponto em questão é que nesse tempo de acomodação estaremos perdendo uma geração de oportunidades com tristes desencontros.

O mundo está em desequilíbrio. O desafio do momento está na mão do homem que esta repensando e ainda não encontrou seu novo reposicionamento. E das revistas femininas retiro uma frase, provavelmente escrita por uma mulher, para este novo repensar e que não consegui definir se é machista ou feminista: “Mas como todo ser inteligente o homem está aprendendo a aproveitar o melhor da mulher moderna."

Caros leitores, definitivamente existem apenas dois sexos, mas os gêneros são infindáveis e as insanidades estarão populando cada dia mais os nossos  noticiários.

Beijos do Prince

Insisto... Racionalidade e distanciamento são virtudes importantes, mas elas não me comovem.
 Eu gosto de mulher doce.

A poesia e branca - Pablo Neruda



A poesia é branca:

sal de água envolta em gotas,
enruga-se e amontoa-se,
é preciso estender a pele deste planeta,

é preciso engomar o mar com a sua brancura
e vão e vêm as mãos ,
alisam as sagradas superfícies
e assim se engedram as coisas:

dia a dia fazem as mãos o mundo,
une-se o fogo ao aço,
chegam o linho, o algodão e o cotim

da faina das lavandarias
e nasce da luz uma pomba:
a pureza regressa da espuma.

Pablo Neruda

terça-feira, agosto 21, 2012

Alegre Menina - Jorge Amado / Dori Caymmi



O que fizeste sultão de minha alegre menina?

Palácio real lhe dei, um trono de pedraria

Sapato bordado a ouro, esmeraldas e rubis

Ametista para os dedos, vestidos de diamantes

Escravas para serví-la, um lugar no meu dossel

E a chamei de rainha, e a chamei de rainha


O que fizeste sultão de minha alegre menina?

Só desejava as campinas, colher as flores do mato

Só desejava um espelho de vidro prá se mirar

Só desejava do sol calor para bem viver

Só desejava o luar de prata prá repousar

Só desejava o amor dos homens prá bem amar


No baile real levei a tua alegre menina

Vestida de realeza, com princesas conversou

Com doutores praticou, dançou a dança faceira

Bebeu o vinho mais caro, mordeu fruta estrangeira



Entrou nos braços do rei, rainha mais verdadeira.



Jorge Amado

Do livro “Gabriela, Cravo e Canela”
Esse poema foi musicado por Dori Caymmi

sexta-feira, agosto 17, 2012

Para ser popular - Oscar Wilde

“A cada bela impressão que causamos,
 conquistamos um inimigo.

 Para ser popular 
é imprescindível ser medíocre.”

Oscar Wilde

Acalanto - Cecilia Meireles


Dorme, que eu penso. 
Cada qual assim navega 
pelo seu mar imenso.

Estarás vendo. Eu estou cega. 
Nem te vejo nem a mim. 
No teu mar, talvez se chega.

Este, não tem fim. 
Dorme, que eu penso. 
Que eu penso neste navio 
clarividente em que vais.

Mensagens tristes lhe envio. 
Pensamentos – nada mais.

Cecília Meireles

segunda-feira, agosto 13, 2012

Oracao Celta


I
Que jamais, em tempo algum,
o teu coração acalente ódio.

Que o canto da maturidade
jamais asfixie a tua criança interior.

Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.

Que as perdas do teu caminho
sejam sempre encaradas como lições de vida.

Que a musica seja tua companheira
de momentos secretos contigo mesmo.

Que os teus momentos de amor contenham a magia
de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis
olhando a luz da vida em cada amanhecer.

Que cada dia seja um novo recomeço,
onde tua alma dance na luz.

Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas
de tua passagem em cada coração.

Que em cada amigo o teu coração faça festa,
que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.

Que em teus momentos de solidão e cansaço,
esteja sempre presente em teu coração
a lembrança de que tudo passa e se transforma,
quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente,
para que tu percebas a ternura invisível,
tocando o centro do teu ser eterno.

Que um suave acalento te acompanhe, na terra ou no espaço,
e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.

Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!

Que os teus pensamentos e os teus amores,
o teu viver e a tua passagem pela vida,
sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.

Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto,
viajando eternamente no centro do teu ser.

Que este amor transforme os teus dramas em luz,
a tua tristeza em celebração,
e os teus passos cansados
em alegres passos de dança renovadora.

Que jamais,
em tempo algum,
tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.

Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!




II

Que a estrada se abra à sua frente,

Que o vento sopre levemente às suas costas,

Que o sol brilhe morno e suave em sua face,

Que a chuva caía de mansinho em seus campos...

E, até que nos encontremos de novo,

Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.




III

Que despertes para o mistério de estar aqui
e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.

Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.

Que respondas ao chamado do teu Dom
e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.

Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante
e que a ansiedade jamais te ronde.

Que a tua dignidade exterior
reflita uma dignidade interior da alma.

Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos
que não buscam atenção.

Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.

Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada
tecida em torno do cerne do assombro.


Beijos do Prince
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terça-feira, agosto 07, 2012

Sonetos de William Shakespeare


Os Sonetos de Shakespeare perfazem um conjunto de 154 poemas, embora as datas de composição sejam imprecisas.


Esta capa é da publicação original de 1609. Foi traduzido para o Portugues por diversos pessoas.

Escolhi os que considero os mais interessantes e trouxe para o você. Essa leitura requer mais do que tempo... requer Alma... Beijos do Prince.




Soneto 15
Quando penso que tudo o quanto cresce
Só prende a perfeição por um momento,
Que neste palco é sombra o que aparece
Velado pelo olhar do firmamento;
Que os homens, como as plantas que germinam,
Do céu têm o que os freie e o que os ajude;
Crescem pujantes e, depois, declinam,
Lembrando apenas sua plenitude.
Então a idéia dessa instável sina
Mais rica ainda te faz ao meu olhar;
Vendo o tempo, em debate com a ruína,
Teu jovem dia em noite transmutar.
Por teu amor com o tempo, então, guerreio,
E o que ele toma, a ti eu presenteio.

Soneto 17
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.


Soneto 23
Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,
Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.
Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa
Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

Soneto 28
Como voltar alegre ao meu labor
Se não tenho a vantagem da dormida?
Se o dia tem na noite um opressor,
E a noite pelo dia é oprimida?
Mesmo inimigos ambos se mostrando,
Os dois se unem pra me torturar;
Por meu labor de ti só me afastar.
Que tu brilhas por ele eu digo ao dia,
E o alegras, se o céu fica nublado.
Mas bajulo da noite a tez sombria:
Sem astros, tu lhe dás teu tom dourado.
Mas os dias só trazem dissabores,
E as noites fortalecem minhas dores.

Soneto 29
Quando, malquisto da fortuna e do homem,
Comigo a sós lamento o meu estado,
E lanço aos céus os ais que me consomem,
E olhando para mim maldigo o fado;
Vendo outro ser mais rico de esperança,
Invejando seu porte e os seus amigos;
Se invejo de um a arte, outro a bonança,
Descontente dos sonhos mais antigos;
Se, desprezado e cheio de amargura,
Penso um momento em vós logo, feliz,
Como a ave que abre as asas para a altura,
Esqueço a lama que o meu ser maldiz:
Pois tão doce é lembrar o que valeis
Que está sorte eu não troco nem com reis.


Soneto 30
Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,
Afogo olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor já superara,
Deplorando o que desapareceu.
Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o já chorado e já sofrido,
Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso um momento,
Vão-se as perdas e acaba o sofrimento


Soneto 35
Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;
Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;
Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço
Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

Soneto 53
De que substância foste modelado,
Se com mil vultos o teu vulto medes?
Tantas sombras difundes, enfeixado
Num ser que as prende, e a todas sobre excedes;
Adônis mesmo segue o teu modelo
Em vã, esmaecida imitação;
A face helênica onde pousa o belo
Ganhou em ti maior coloração;
A primavera é cópia desta forma,
A plenitude és tu, em que consiste
O ver que toda graça se transforma
No teu reflexo em tudo quanto existe:
Qualquer beleza externa te revela
Que a alma fiel em ti acha mais bela.


Soneto 59
Se nada é novo, e o que hoje existe
Sempre foi, por falha a nossa mente
E, se esforçando por criar, insiste,
Parindo o mesmo filho novamente!
Que do passado houvesse uma mensagem,
Já com mais de quinhentas translações,
Mostrando em livro antigo a sua imagem
Quando a escrita mal tinha convenções!
Para eu ver o que então diria o mundo
Da maravilha dessa sua forma;
Se nós ou eles vamos mais ao fundo,
Ou se a revolução nada reforma.
Estou certo que os sábios do passado
A alvo pior tenham louvado.

Soneto 65
Se bronze, pedra, terra, mar sem fim
Estão sob o jugo da mortalidade,
Como há de o belo enfrentar fúria assim
Se, como a flor, é só fragilidade?
Como há de o mel do estio respirar
Frente o cerco dos dias, que é implacável,
Se nem rochas o podem enfrentar
Nem porta de aço ao Tempo é impermeável?
Diga-me onde, horrível reflexão,
Pode o belo do Tempo se ocultar?
Seu passo é retardado por que mão?
Quem pode a ruína do belo evitar?
Só se eu este milagre aqui fizer
E a tinta ao meu amor um brilho der.


Soneto 71
Quando eu morrer não chores mais por mim
Do que hás de ouvir triste sino a dobrar
Dizendo ao mundo que eu fugi enfim
Do mundo vil pra com os vermes morar.
E nem relembres, se estes versos leres,
A mão que os escreveu, pois te amo tanto
Que prefiro ver de mim te esqueceres
Do que o lembrar-me te levar ao pranto.
Se leres estas linhas, eu proclamo,
Quando eu, talvez, ao pó tenha voltado,
Nem tentes relembrar como me chamo:
Que fique o amor, como a vida, acabado.
Para que o sábio, olhando a tua dor,
Do amor não ria, depois que eu me for.

Soneto 73
Em mim tu vês a época do estio
Na qual as folhas pendem, amarelas,
De ramos que se agitam contra o frio,
Coros onde cantaram aves belas.
Tu me vês no ocaso de um tal dia
Depois que o Sol no poente se enterra,
Quando depois que a noite o esvazia,
O outro eu da morte sela a terra.
Em mim tu vês só o brilho da pira
Que nas cinzas de sua juventude
Como em leito de morte agora expira
Comido pelo que lhe deu saúde.
Visto isso, tens mais força para amar
E amar muito o que em breve vais deixar.


Soneto 91
Alguns cantam seu berço, alguns talento,
Alguns riqueza, alguns seu corpo são,
Alguns as vestes, mesmo de um momento,
Alguns o seu falcão, cavalo ou cão;
Toda emoção traz seu próprio prazer,
Que uma grande alegria neste tem;
Mas não sei desse meu gáudio fazer,
Pois eu supero a todos com um só bem.
Mais que berço pra mim é o teu amor,
Mais rico que a riqueza, que tecido,
Maior do que animal é o teu valor;
Tendo a ti sou por tudo envaidecido:
Sou desgraçado só no tu poderes
Levando tudo, infeliz me fazeres.

Soneto 92
Faz teu pior pra mim te afastares,
Enquanto eu viva tu és sempre meu,
Não há mais vida se tu não ficares,
Pois ela vive desse amor que é teu.
Por que hei de temer grande traição
Se tem fim minha vida com a menor;
De vida abençoada eu sou, então,
Por não estar preso ao teu cruel humor.
Tua mente inconstante não me afeta,
Minha vida é ligada à tua sorte;
Como é feliz o fato que decreta
Que sou feliz no amor, feliz na morte!
Porém que graça escapa de temer?
Podes ser falso e eu sequer saber.


Soneto 96
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

Soneto 107
Medos, nem alma capaz de prever
Os sonhos de porvir do mundo inteiro,
Podem o meu amor circunscrever,
Nem dar-lhe fado triste por certeiro.
A Lua seu eclipse superou,
Os agourentos de si podem rir,
A incerteza agora se firmou,
A paz proclama olivas no porvir.
Com o orvalho dos tempos refrescado
O meu amor a própria morte prende
E em meus versos vivo consagrado,
Enquanto as tribos mudas ela ofende.
Aqui encontrarás teu monumento,
E o bronze dos tiranos vai com o vento.



Soneto 130
Não tem olhos solares, meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.
Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.
Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslizando,
Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.



Soneto 137
Que fazes a meus olhos, tolo Amor,
Que eles olham sem ver o que estão vendo?
Sabem o que é beleza, aonde for,
Mas que o melhor é mal ficam dizendo.
Se os olhos corrompidos pelo afeto
Prendem-se ao baio por todos montado,
Por que fizeste ganchos com mentiras
Aos quais meu pensamento fica atado?
Por que meu coração julga ser seu
O terreno que sabe ser de mil
Ou contesta o que viu o olho meu
Tentando tornar belo o rosto vil?
No certo olhar e coração erraram
E pro que é falso os dois se transportaram.


Soneto 148
Ai, ai, que olhos pôs-me o amor no rosto,
Que não se ligam com a real visão!
Se ligam, onde foi o juízo posto
Que ao certo lança falsa acusação?
Se o que meu falso olhar ama é bonito
Que meios tem o mundo pra o negar?
E se o não for, pelo amor fica dito
Que o olhar do mundo vence o de se amar.
Como pode do Amor o olhar ser justo
Se entre vigília e pranto ele se verga?
E nem espanta o olhar errar de susto
Se sem céu claro nem o sol enxerga.
Esperto amor, com pranto a me cegar
Pra cobrir erros quando o amor olhar.

quarta-feira, agosto 01, 2012

Qual é a razão?


Vez ou outra essa pergunta é feita : Qual é a razão do Prince Cristal?


Segundo o Iluminismo a
 razão não é um conteúdo fixo, mas muito mais uma faculdade que só se pode compreender plenamente em seu exercício e explicação. Dito isto esclareço que não ter uma razão é o principio da minha ação por aqui, mas existe um sentido por trás desse nome. 

O Prince Cristal traz a mesma dualidade do Yin Yang, o símbolo do blog.
O símbolo que representa a integração de Yin e Yang é denominado o diagrama do Tai Chi.


Prince é a reflexão do lado Yang e Cristal é o sentido do lado Yin.

Segundo esta filosofia, duas forças complementares compõem tudo que existe, e do equilíbrio dinâmico entre elas surge todo movimento e mutação e essa mesma dualidade que trago na alma.O fogo que transforma a água e a água que extingue o fogo. Toda esta realidade dualista nos remete a Deus, ao Uno.

O Prince se constroe sobre o fogo das paixões e impetuosidade. No calor da decisão e da atitude, na sensualidade, no máximo prazer, na espada do guerreiro e na coragem do cavaleiro.

O Cristal se esconde no fundo escuro das águas azuis e cristalinas do amor e romance. Na pureza da poesia e nas sem razões de todas as sentimentalidades.

É um personagem construido no conflito de Egos e na completa neutralização deles não havendo qualquer hierarquia entre os dois.



Sou o contraste entre
o material e o o espiritual,
o sensível e o rude,
o sonhador e o prático,
o erótico e o o sensual,
a poesia e a realidade, 
o cafajeste e o romântico...

Controlo meus desejos,
Sucumbo as minhas paixões,
Penso rápido,
Ajo com sutileza.

Me procuro e não acho, 
pois ando nos dois mundos.
Estou no seu espelho 
e você está no meu.

Vivo em tempos diferentes 
da minha existência.
Aprecio o que foi, 
o que é e o que virá.
Minha perspectiva é o agora.


Passada a dualidade, surge a perspectiva. A perspectiva é encontrada pela atividade mental, até chegar a uma fonte mais profunda que guia minha interação pessoal com o universo . 


Ao perceber que todas as coisas (inclusive nós mesmos) são interdependentes e constantemente redefinidas pela mudança das circunstâncias, passo a ver todas as coisas como elas são, e a nós mesmos como apenas uma parte do momento presente. 


Esta compreensão da unidade me leva a uma apreciação dos fatos da vida e do nosso lugar neles como simples momentos miraculosos que "apenas são", por isso procuro agir de acordo com a natureza, e com sutileza, controlando meus desejos e não fugindo de minhas verdades...

Prince Cristal
As coisas escritas acima não incluem qualquer juízo de valor e não é meu relato de vida .


Algumas pessoas olham o mundo e perguntam: por quê?
Eu penso em coisas que nunca existiram e pergunto: por que não?"
George Bernard Shaw

Ah, so eu sei - Fernando Pessoa


Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,

Sem melodia, nem razão.
Só eu, só eu,
E não o posso dizer

Porque sentir é como o céu
Vê-se mas não há nele que ver.

Fernando Pessoa

quarta-feira, julho 25, 2012

Paradoxo da verdade - Tao te king - Lao-Tse

Quem demanda a perfeiçao
parece ser imperfeito.

Embora a sua oculta plenitude
plenifique todas as vacuidades.

Quem possui verdadeira plenitude
É inesgotavel
Por mais que se esgote.

Quem anda direito,
parece torto.

Grande habilidade parece inabilidade.
Arte genuína
parece mediocridade.

Movimento supera o frio.

Quietação vence o calor.

O que é puro e verdadeiro
sempre orienta o mundo.

Lao-Tse da obra-prima Tao te king

Tudo que é do mundo da qualidade é ignorado pelo mundo das quantidades.
O cego acha normal a escuridão o anormal a luz.

O doente que nunca conheceu saúde pode achar normal a doença e anormal a saúde.
Portanto a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens.

As grandes verdades quase sempre aparecem em forma de paradoxos.

sábado, julho 21, 2012

Livro do desassossego - Fernando Pessoa




Por que hás-de tentar ser como os outros, se estás condenado a ti?

Para que hás-de rir, se, quando ris, a tua própria alegria sincera é falsa, porque nasce de te esqueceres de quem és?

Para que hás-de chorar, se sentes que de nada te serve, e choras mais as lágrimas não te consolarem, que porque as lágrimas te consolem?

Se és feliz quando ris, quando ris venci; se então és feliz, porque te não lembras de quem és, quão mais feliz serás comigo, onde não mais te lembrarás de nada?

Se descansas perfeitamente, se acaso dormes sem sonhar, como não descansarás no meu leito, onde o sono nunca tem sonhos?

Se um momento te elevas, porque vês a Beleza, e te esqueces de ti e da vida, como não te elevarás no meu palácio, cuja beleza nocturna não sofre discordância, nem idade, nem corrupção; nas minhas salas onde nenhum vento perturba os reposteiros, nenhum pó cobre os espaldares, nenhuma luz desbota, pouco a pouco, os veludos e os estofos, nenhum tempo amarelece a brancura dos ornatos brancos.

Vem ao meu carinho, que não sofre mudança; ao meu amor, que não tem cessação! Bebe da minha taça, que não se esgota, o néctar supremo que não enjoa nem amarga, que não desgosta nem inebria.

Contempla, da janela do meu castelo, não o luar e o mar, que são coisas belas e por isso imperfeitas; mas a noite vasta e materna, o esplendor indiviso do abismo profundo!

Nos meus braços esquecerás o próprio caminho doloroso que te trouxe a eles.

Fernando Pessoa como Bernardo Soares - Livro do desassossego

Livro especialíssimo para todas as pessoas que buscam seu verdadeiro eu.

Mulheres de William Bouguereau









Mulheres do imaginário do Prince


terça-feira, julho 17, 2012

Os Meus Pensamentos são Todos Sensacoes - Fernando Pessoa


Sou um guardador de rebanhos. 
O rebanho é os meus pensamentos 
E os meus pensamentos são todos sensações. 
Penso com os olhos e com os ouvidos 
E com as mãos e os pés 
E com o nariz e a boca. 
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la 
E comer um fruto é saber-lhe o sentido. 
Por isso quando num dia de calor 
Me sinto triste de gozá-lo tanto. 
E me deito ao comprido na erva, 
E fecho os olhos quentes, 
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, 
Sei a verdade e sou feliz. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema IX" 
Heterônimo de Fernando Pessoa

sábado, julho 14, 2012

Poema dos olhos da amada - Vinicius de Moraes


Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.


Vinicus de Moraes

terça-feira, julho 10, 2012

Apenas nos iludimos, pensando ser donos das coisas


Apenas nos iludimos, 

pensando ser donos das coisas, 
dos instantes e dos outros. 

Comigo caminham todos os mortos que amei,

todos os amigos que se afastaram, 

todos os dias felizes que se apagaram. 

Nao perdi nada, 

apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Texto do livro "Não te deixarei morrer, David Crockett" do escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares.

sexta-feira, julho 06, 2012

Carta a Ofelia - Fernando Pessoa

Meu Bebezinho lindo.


Não imaginas a graça que te achei hoje à janella da casa de tua irmã!
Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).


Tenho estado muito triste, e além d’isso muito cansado – triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d’essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado…


Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria à minha. 


No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.


Enfim…
Amanhã passo à mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
Sempre e muito teu…


Ahhh... cartas de amor ridículas que nos fazem grandes.
Eu sou o Prince


Cem sonetos de amor - LXIX - Pablo Neruda


Talvez não ser é ser sem que tu sejas, 
Sem que vás cortando o meio-dia 
Como uma flor azul, sem que caminhes 
Mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

Sem essa luz que levas na mão 
Que talvez outros não verão dourada, 
Que talvez ninguém soube que crescia 
Como a origem rubra da rosa,

Sem que sejas, enfim, sem que viesses 
Brusca, incitante, conhecer minha vida, 
Aragem de roseira, trigo do vento,

E desde então sou porque tu és, 
E desde então, sou e somos 
E por amor serei, serás, seremos.

Pablo Neruda

John Willian Godward - Athenais


Sensualidade 
na visão do Prince

Quadro de 1908

sexta-feira, junho 29, 2012

O vento na ilha - Pablo Neruda



Vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como ele corre o mundo para levar-me longe.

Esconde-me em teus braços
por esta noite erma,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para levar-me longe.

Como tua fronte na minha,
tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa levar-me.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando na sombra,
enquanto eu, protegido
sob teus grandes olhos,
por esta noite só
descansarei, meu amor.


Pablo Neruda

Livro das perguntas - Pablo Neruda


I
Porque é que os imensos aviões
não passeiam com os seus filhos?
Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?
Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?
Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?
II
Se já morri e não me dei conta
a quem perguntarei a hora?
De onde tira tantas folhas
a Primavera de França?
Onde pode viver um cego
perseguido por abelhas?
Se se acabar o amarelo
com que é que vamos fazer o pão?
III
Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?
Porque é que as árvores escondem
o esplendor das suas raízes?
Quem ouve os remorsos
do automóvel criminoso?
Haverá algo mais triste no mundo
que um comboio imóvel na chuva?
IV
Quantas igrejas tem o céu?
Porque não atacará o tubarão
as impávidas sereias?
Conversará o fumo com as nuvens?
É verdade que as esperanças
se devem regar com orvalho?
V
Que guardas na tua bossa?
perguntou o camelo à tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
E tu, que conversas tens com as laranjas?
Terá mais folhas uma pereira
que em Busca do Tempo Perdido?
Porque se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
Pablo Neruda