quarta-feira, janeiro 21, 2015

Meu olhar - Fernando Pessoa


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Fernando Pessoa 
como Alberto Caieiro

terça-feira, janeiro 20, 2015

Lembro-me bem do seu olhar - Jose L. Peixoto

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo,
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove

domingo, dezembro 21, 2014

Nua - Pablo Neruda

Nua és tão simples como uma de tuas mãos,

lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,

tens linhas de lua, caminhos de maçã,

nua és magra como o trigo nu.


Nua és azul como a noite em Cuba,

tens trepadeiras e estrelas no pêlo,

nua és enorme e amarela

como o verão numa igreja de ouro.


Nua és pequena como uma de tuas unhas,

curva, sutil, rosada até que nasça o dia

e te metes no subterrâneo do mundo


como num longo túnel de trajes e trabalhos:

tua claridade se apaga, se veste, se desfolha

e outra vez volta a ser uma mão nua.




Pablo Neruda

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Soneto 87 - Adeus! Caro demais te Possuia - Shakespeare



Adeus! caro demais te possuía, 
sabes a estimativa em que te trazem; 
carta de teu valor dá-te franquia, 
meus vínculos a ti já se desfazem. 

Como reter-te sem consentimento 
e onde mereço essa riqueza grada? 
Falece a causa em mim de tal provento 
e a patente que tenho é revogada. 

Deste-me, sem saber do teu valor, 
ou quanto a mim, a quem o deste, errando, 
e a dávida que em base errada for 
volta a casa, melhor se ponderando. 

Tive-te assim qual sonho de embalar, 
um rei no sono e nada ao acordar. 


William Shakespeare, in "Sonetos (87)

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Cortada ao meio - Mario Quintana



‎"A laranja cortada ao meio, 

Úmida de amor, anseia pela outra...

É assim, é bem assim que eu te desejo!"

quarta-feira, dezembro 17, 2014

Nunca te beijei - Florbela Espanca




Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!




Florbela Espanca

terça-feira, dezembro 16, 2014

Sonhos impensados

Vidas num encontro adorável.
Caminhos opostos. 
Destinos cruzados. 
Encontros marcados em sonhos impensados.
Desejos e loucuras de uma flor 
que tenta brotar 
num terreno improvável.

Prince Cristal

Poesia incidental do momento....


"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, 
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso,  existem momentos inesquecíveis,  
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis…"
Fernando Sabino 

quinta-feira, novembro 06, 2014

Quarto em Desordem - Drummond


Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor.
Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

Que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra,
e mudo de natural silêncio

já não cabe em tanto gesto
de colher e amar

A nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo!

Corpo, corpo, corpo

Verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.


Carlos Drummond de Andrade
com mais uma pérola da sua poesia sensual

segunda-feira, novembro 03, 2014

Ardo - Nietzche


"Sim, sei de onde venho!

Ardo para me consumir.

Aquilo em que toco torna-se luz,

carvão aquilo que abandono.

Sou certamente labareda!"

Friedrich Nietzsche

A Outra - Fernando Pessoa

Amamos sempre no que temos

O que não temos quando amamos.

O barco pára, largo os remos

E, um a outro, as mãos nos damos.

A quem dou as mãos?

À Outra.



Teus beijos são de mel de boca,

São os que sempre pensei dar,

E agora e minha boca toca

A boca que eu sonhei beijar.

De quem é a boca?

Da Outra.



Os remos já caíram na água,

O barco faz o que a água quer.

Meus braços vingam minha mágoa

No abraço que enfim podem ter.

Quem abraço?

A Outra.



Bem sei, és bela, és quem desejei…

Não deixe a vida que eu deseje

Mais que o que pode ser teu beijo

E poder ser eu que te beije.

Beijo, e em quem penso?

Na Outra.



Os remos vão perdidos já,

O barco vai não sei para onde.

Que fresco o teu sorriso está,

Ah, meu amor, e o que ele esconde!

Que é do sorriso

Da Outra?



Ah, talvez, mortos ambos nós,

Num outro rio sem lugar

Em outro barco outra vez sós

Possamos nos recomeçar

Que talvez sejas

A Outra.



Mas não, nem onde essa paisagem

É sob eterna luz eterna

Te acharei mais que alguém na viagem

Que amei com ansiedade terna

Por ser parecida

Com a Outra.



Ah, por ora, idos remo e rumo,

Dá-me as mãos, a boca, o ter ser.

Façamos desta hora um resumo

Do que não poderemos ter.

Nesta hora, a única,

Sê a Outra.




Fernando Pessoa

sexta-feira, outubro 31, 2014

Mulher andando nua pela casa - Drummond

Mulher andando nua pela casa

envolve a gente de tamanha paz.

Não é nudez datada, provocante.

É um andar vestida de nudez,

inocência de irmã e copo d’água.

O corpo nem sequer é percebido

pelo ritmo que o leva.

Transitam curvas em estado de pureza,

dando este nome à vida: castidade.

Pêlos que fascinavam não perturbam.

Seios, nádegas (tácito armistício)

repousam de guerra.

Também eu repouso.

Carlos Drummond de Andrade escreveu lindas poesias sensuais..
Pin Up de Elvegren.

quinta-feira, outubro 30, 2014

Despedida

Uma harpa envelhece.

Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores sonham junto às estátuas de treva.

A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.

Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se foi amor.

Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das ruínas, tudo se perdeu no solitário campo dos céus.

Uma estrela caía.

Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do sul, a sua extrema dor anoitecida.

Não vens jamais.

O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me entristeço, a absoluta condenação.

Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam no centro desta cidade.

Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim, as tuas folhas de outubro.

Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça, a nudez de quem sangra à vista das catedrais.

O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.

Esta música é quase o vento.

José Agostinho Baptista, in “Paixão e Cinzas”

quarta-feira, outubro 29, 2014

Poeira que cobre teu peito


Sobre a poeira que te cobre o peito,
e o frio que percorre seu leito
comigo nos pensamentos
...
dEIXo
...

o meu cartão de visita

o meu nome

morada 

email
telefone
...

Arte de Amar - Manuel Bandeira


Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.

Só em Deus ela pode encontrar satisfação.


Não noutra alma.

Só em Deus – ou fora do mundo.


As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.


Porque os corpos se entendem,
mas as almas não.



Poesia especialíssima de Manuel Bandeira

sábado, outubro 18, 2014

Coisas que a vida ensina depois dos 40 - Artur da Tavola


Amor não se implora, não se pede não se espera...
Amor se vive ou não.

Ciúmes é um sentimento inútil. 
Não torna ninguém fiel a você.

Animais são anjos disfarçados,
 mandados à terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.

Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.

As pessoas que falam dos outros pra você, 
vão falar de você para os outros.

Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.

Água é um santo remédio.

Deus inventou o choro para o homem não explodir.

Ausência de regras 
é uma regra que depende do bom senso.

Não existe comida ruim,
 existe comida mal temperada.

A criatividade caminha junto com a falta de grana.

Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.

Amigos de verdade nunca te abandonam.

O carinho é a melhor arma contra o ódio.

As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.

Há poesia em toda a criação divina.

Deus é o maior poeta de todos os tempos.

A música é a sobremesa da vida.

Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.

Filhos são presentes raros.

De tudo, o que fica é o seu nome 
e as lembranças a cerca de suas ações.

Obrigada, desculpa, por favor, 
são palavras mágicas,
chaves que abrem portas para uma vida melhor.

O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras,
une facções,
destrói preconceitos,
cura doenças...

Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.

E vive a vida mais alegremente...




Artur da Távola

quinta-feira, outubro 16, 2014

Soneto 18 - William Shakespeare

Um Dia de Verão


Se te comparo a um dia de verão

és por certo mais bela e mais serena.

O vento espalha as flores pelo chão

e a demora do estio é bem pequena.



Às vezes brilha o sol em demasia

outras vezes desmaia com frieza.

O que é belo declina num só dia,

na eterna mutação da natureza.



Mas em ti o verão será eterno,

esse encanto que tens não perderás

nem chegarás da morte ao triste inverno.



Nestas linhas, com o tempo, crescerás,

e enquanto sobre a terra houver um ser

meus versos, vivos, te farão viver.





Poesia de William Shakespeare

Murmurio - Cecilia Meireles


TRAZE-ME um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!



Um pouco de sombra, apenas,
— vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no seu coração!


A alvura, apenas, dos ares:
— vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
— Vê que nem te digo — esperança!
— Vê que nem sequer sonho — amor!




Cecilia Meireles

domingo, outubro 12, 2014

Livro do desassossego - Trechos - Fernando Pessoa


"O coração, se pudesse pensar, pararia."

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. 


Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. 


Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cômodas até mim. 


Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.


Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."


...


"Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. 


Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior.




"É domingo e não tenho que fazer. Nem sonhar me apetece, de tão bem que está o dia. Gozo-o com uma sinceridade de sentidos a que a inteligência se abandona. Passeio como um caixeiro liberto. Sinto-me velho, só para ter o prazer de me sentir rejuvenescer."


...


"O homem perfeito do pagão era a perfeição do homem que há; o homem perfeito do cristão a perfeição do homem que não há; o homem perfeito do budista a perfeição de não haver homem."


...


"Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido de que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos."


...


"Não é fácil distinguir o homem dos animais, não há critério seguro para distinguir o homem dos animais. As vidas humanas decorrem da mesma íntima inconsciência que as vidas dos animais. As mesmas leis profundas, que regem de fora os instintos dos animais, regem, também, de fora, a inteligência do homem, que parece não ser mais que um instinto em formação, tão inconsciente como todo instinto, menos perfeito porque ainda não formado.


Fernando Pessoa como Bernardo Soares
Imagens de um cartaz sobre um curso sobre o livro e a capa do mesmo.


O Livro do Desassossego é uma das obras maiores de Fernando Pessoa. É assinado pelo semi-heterónimo Bernardo Soares. É um livro fragmentário, tendo interpretações díspares sobre o modo de organizar o livro.Teresa Sobral Cunha considera que existem dois Livros do Desassossego. Segundo a estudiosa, que organizou em conjunto com Jacinto do Prado Coelho e Maria Aliete Galhoz a primeira edição do livro editada apenas em 1982, existem dois autores do livro: Vicente Guedes numa primeira fase (anos 10 e 20) e o já referido Bernardo Soares (final dos anos 20 e 30).
Já António Quadros considera que a primeira fase do livro pertence a Pessoa. A segunda fase, mais pessoal e de índole da escrita de um diário, é a que pertence a Bernardo Soares.

O que você acha do logo abaixo?



Me alegra poder pensar, sentir 
e encontrar eco nas palavras de Fernando Pessoa.
O desassosego faz parte da vida de todos nós...
e como uma ventania devemos saber que ela passa e se vai.

Deixemos passar. Quietos...
Para quem gosta do Prince...
é uma boa sugestão para começar a ler amanhã mesmo.

Segue o link :

 Beijo do pRiNCe
Visite o Prince Cristal

Reviravoltas


Para quem a vida é tempestade virá a brisa.

Reviravoltas nos acontecem.

No início solidão, medo, tristeza e desesperança.

Aos poucos o entendimento clareia, os sentimentos acalmam e a paz se instala.

Com fé, paciência, perseverança e luta.

Enfrentando seus medos...

Eles terão medo de você.

Prince Cristal

Destino



Destino nas suas mãos,

Para que medo,

se não preciso ter razão!

Me da seu coração,

 sua vida,

sua compreensão.

Esquece o pensar,

apenas sente,

e por fim,

conseguirá,

seu amor para mim dar.



Prince Cristal

sábado, outubro 11, 2014

Outrora


Outrora...
Onde os sonhos eram possíveis,
encantadores sorrisos,
indescritíveis declarações,
entre imaginações e realizações
O nascer do sol em nossos corações.

Os meus sonhos agora
que não passam de uma quimera,
linda primavera,
verá...
e renascerá.



Nascer do sol em São Miguel dos Milagres - Alagoas 
Prince Cristal

quinta-feira, outubro 09, 2014

Citacoes de Fernando Pessoa



Frases especiais, de Fernando Pessoa:


"Todas as cartas de amor são ridículas (...) Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas."


"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia."
"Navegar é preciso, viver não é preciso."
"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar."


"O poeta é um fingidor."

"Eu sou do tamanho do que vejo... E não do tamanho de minha altura."

"Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce."

"Não há normas. Todos os homens são excepção a uma regra que não existe".
"Não sou do tamanho da minha altura, mas da estatura daquilo que posso ver."


"Sábio é quem se contenta com o espectáculo do mundo."

"A diferença entre Deus e nós deve ser não de atributos, mas da própria essência do ser. Ora tudo é o que é. Portanto Deus é não só o que é mas também o que não é. Confunde-nos de Si com isso".

"Nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento colectivo é estúpido porque é colectivo: nada passa as barreiras do colectivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo".

"Do indivíduo temos que partir, ainda que seja para o abandonar".

"De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos."


"Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada."


"Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta."

terça-feira, fevereiro 04, 2014

Mascarada - Manuel Bandeira


- Você me conhece?
- Não conheço não.
- Ah, como fui bela!
Tive grandes olhos,
que a paixão dos homens
(estranha paixão!)
Fazia maiores…
Fazia infinitos.
Diz: não me conheces?
- Não conheço não.

- Se eu falava, um mundo
Irreal se abria
à tua visao!
Tu não me escutavas:
Perdido ficavas
Na noite sem fundo
Do que eu te dizia…
Era a minha fala
Canto e persuasão…
Pois não me conheces?
- Não conheço não.
- Choraste em meus braços
- Não me lembro não.

- Por mim quantas vezes
O sono perdeste
E ciúmes atrozes
Te despedaçaram!
Por mim quantas vezes
Quase tu mataste,
Quase te mataste,
Quase te mataram!
Agora me fitas
E não me conheces?
- Não conheço não.

Conheço que a vida
É sonho, ilusão.
Conheço que a vida,
A vida é traição.”

Nao deixe o amor passar - Drummond

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.


Se os olhares se cruzarem e, neste momento,houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.


Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.


Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: 


Deus te mandou um presente: O Amor.


Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.

Elegia de Taormina - Vinicius de Moraes

A dupla profundidade do azul
Sonda o limite dos jardins
E descendo até a terra o transpõe.

Ter o Etna, coberto de neve, ao horizonte da mão,
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.
Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.

Ninguém esgota o azul e seus enigmas.
Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desabar do azul, o desfecho da bomba,
Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.

Nem mesmo debruçados
Sobre o mar de Taormina.

Oh, intolerável beleza,
Oh, pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.

Sob o signo trágico vivemos
Mesmo quando na alegria
Levantamos o pão e o vinho.
Oh, intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.


Vinicius de Moraes

sexta-feira, setembro 27, 2013

O que realmente importa?



Essa é uma estória especial e antiga. Nos traz uma reflexão sobre uma opção de vida que na maioria das vezes negligenciamos. O que vou recontar aqui se trata apenas de uma versão com as nuances de minha lembrança e imaginação do conto que li a muitos anos atrás.
Não se trata de uma cópia.
Trata-se do que realmente importa...

Existia um reino muito, muito longe nos confins da China antiga. Lá reinava um homem muito sábio e querido pelo seu povo. Já velho, veio a falecer. Assumiu o trono seu filho. Homem de personalidade forte e egoísta, o novo rei Qin.

 
O tempo passou e ele percebeu que tinha o poder, a vida e a morte daquelas pessoas em suas mãos, era temido! porém não tinha o amor, nem a admiração do seu povo. Isto o amargurava e o deixava muito triste, principalmente porque ele naturalmente se comparava ao seu pai.
O tempo passou e aquela situação se acomodou como um pântano após uma tempestade. Ficaram marcas, mas elas já não eram percebidas.

Aquele jovem príncipe tornara-se um rei doente e sozinho. Locomovia-se com dificuldade. Buscava uma cura ou um lenitivo que pudesse tornar sua vida mais fácil e prazerosa. Trazia curandeiros e especialistas de todos os confins. Tinha muita riqueza. Tinha pouco amor. Tinha muito luxo. Tinha pouca esperança.
Muitos vieram na tentativa de ajudá-lo. Nada conseguiam, Até que um dia, um forasteiro o procurou e disse que a muitas montanhas dali, a muitas luas de viagem ele iria encontrar um eremita, um sábio que poderia ajudá-lo.

Como não tinha conseguido nenhum sucesso com os seus, resolveu arriscar, montou uma caravana e viajaram por longos dias atravessando o deserto de Gobi e as montanhas do Himalaia.

Chegando ao local indicado, o rei cansado e doente veio ter um encontro com o eremita que fazia sua refeição e o convidara a compartilhar. Comia um pedaço de carne de ovelha assada. O rei Qin assustado, perguntou:

- Mestre, estou admirado ao vê-lo comendo carne. Sábios não se alimentam apenas de raízes e folhas?

- Meu filho, todo o mal é o que sai pela boca do homem. Contenta-te com o que te é oferecido por Deus e pelos seus.

Envergonhado, sentou-se a mesa e serviu-se junto ao sábio. Conversaram demoradamente sobre suas angústias. Acabava de conhecer o mestre Lao.
Passados 2 dias, o rei Qin estava ansioso por conseguir uma cura miraculosa, um chá, uma erva poderosa, mas o sábio apenas disse que a sua cura estava condicionada e ele responder corretamente a 3 perguntas que o faria, caso acertasse teria encontrado a cura.

O rei Qin, obcecado por conseguir esta cura, reuniu todos os seus assessores e encontrou-se com o sábio Lao. Então o sábio disse:

- Meu filho não tente encontrar as respostas. As respostas o encontrarão, mas somente a meditação e o autoconhecimento farão com que isto aconteça. Depois que tiver as 3 perguntas, parta de volta a seu reino. Se algum dia tiver a certeza que as respostas encontraram você, retorne para celebramos juntos.

- Mestre, viajei muitas luas para receber esta cura? Estais zombando de mim? Não posso acreditar que atravessei desertos e montanhas para isto.

E o mestre disse:

- As perguntas são:

Qual o momento mais importante de sua vida?
Qual a pessoa mais importante de sua vida?
Qual a coisa mais importante a ser feita na sua vida?


Após passar as 3 perguntas o mestre desapareceu entre as árvores e não foi mais encontrado.

Desesperado e sentindo-se enganado, o rei Qin partiu com raiva. Mas algo fora plantado na sua mente que não conseguia deixar de pensar.

Que diabos era esta coisa do mais importante? Seria fácil responder ali mesmo! Além do mais havia trazido consigo alguns dos seus melhores assessores e conselheiros.

Voltou ao seu reino e começou a perceber a importância de outras coisas que nunca houvera prestado atenção. Coisas pequenas, pessoas distantes.

Muito tempo passou e o rei Qin se voltou para ajudar o seu povo. Espelhava-se mais na memória do seu querido pai.

Depois de anos sua doença já não era algo que o perturbava, mas não conseguia esquecer o sábio Lao e suas 3 perguntas... algum dia, uma luz caíra sobre ele e entendeu que as respostas o haviam encontrado...

Voltou ao encontro do Mestre Lao, numa viagem muito mais prazerosa...

Ao reencontrá-lo, o mestre o recebeu sorrindo .

- Esperava que retornasse muito antes.

O rei Qin respondeu,

- Mestre, o importante é que realmente me curei e minha vida mudou.

- Então, qual o momento mais importante de sua vida?

- O aqui, o agora, este exato momento!Falou no momento exato que lágrimas rolavam no seu rosto. E continuou ...

- O agora é o mais importante, pois é como cada lágrima que cai dos meus olhos, nunca mais irão voltar a eles e voltar a cair.

O mestre Lao sorrindo assentiu e pediu que continuasse.

- A pessoa mais importante é aquela que esta no meu momento mais importante. Portanto aqui e agora é você mestre. Devemos ter sempre em mente que as pessoas que nos cercam são as mais importantes.

O mestre Lao muito feliz disse:

- Quando chegou aqui, cheguei a duvidar que atingisse tal conhecimento, mas talvez não consiga acertar a terceira. Disse emocionado.

O rei continuou ...

- A coisa mais importante a fazer é trazer mais alegria, felicidade, paz e amor para a pessoa mais importante de sua vida. Acredito que estando aqui e agora, estou me transformando e trazendo de volta a ti os frutos das sementes que me entregou.

Abraçados, seguiram juntos e foram festejar aquele momento especial que nunca mais seria esquecido.

Sofro, Lídia, do Medo do Destino - Fernando Pessoa


Sofro, Lídia, do medo do destino. 
A leve pedra que um momento ergue 
As lisas rodas do meu carro, aterra 
             Meu coração. 

Tudo quanto me ameace de mudar-me 
Para melhor que seja, odeio e fujo. 
Deixem-me os deuses minha vida sempre 
             Sem renovar 

Meus dias, mas que um passe e outro passe 
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo 
Para a velhice como um dia entra 
             No anoitecer. 

Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa

Cancao do amor imprevisto - Mario Quintana

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.


Mario Quintana

segunda-feira, maio 27, 2013

Nascemos sos. Morremos sos

Hoje li um texto do Arnaldo Jabour sobre relacionamentos. Esse é um tema complexo nossos dias. Os relacionamentos a cada dia ficam cada vez mais neuróticos e complexos e para algumas pessoas deve ser como uma tese de mestrado.

Separei so uma parte:

"... Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?
O legal é alguém que está com você, só por você.
E vice versa.
Não fique com alguém por pena. Ou por medo da solidão.
Nascemos sós. Morremos sós.
Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.
E quando você acorda, a primeira impressão
é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.
Tem gente que pula de um romance para o outro.
Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?
Gostar dói.
Muitas vezes voce vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração.....
Faz parte.
Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.
E nem sempre as coisas são como você gostaria que fossem...."