quarta-feira, abril 26, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 11 - Pablo Neruda


Quase fora do céu fundeia entre dois montes uma metade da lua.

Girante, errante noite, a cavadora de olhos.

Quantas estrelas haverá estilhaçadas no charco.

Faz uma cruz de luto entre os meus olhos, foge.

Frágua de metais azuis, noites das caladas lutas, o meu coração dá voltas como um volante louco.

Moça vinde de tão longe, trazida de tão longe, às vezes refulge o seu olhar debaixo do céu.

Queixume, tempestade, remoinho de fúria, passa por sobre o meu coração sem te deteres.

Vento dos sepulcros, leva, despedaça, dispersa a tua raiz sonolenta.

Arranca as grandes arvores do outro lado dela.

Porém tu, moça clara, pergunta de fumo, espiga.

Era a que ia formando o vento com folhas iluminadas.

Por trás das montanhas noturnas, branco lírio de incêndio, ah nada posso dizer! 

Era feita de todas as coisas.

Ansiedade que fendeste o meu peito à facada, são horas de seguir outro caminho, onde ela não sorria.

Tempestade que enterrou os sinos, voltear turvo de borrascas para que tocá-la agora, para que entristecê-la.

Ai seguir o caminho que se afasta de tudo, onde não seja emboscada a angústia, a morte, o inverno,
com os olhos abertos entre o orvalho.

domingo, abril 23, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 10 - Pablo Neruda

Também este crepúsculo nós perdemos.

Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas enquanto a noite azul caia sobre o mundo.

Olhei da minha janela a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
para essa tristeza que tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?

Porque vem até mim todo o amor de repente
Quando me sinto triste, e te sinto tão longe?

Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo e como um cão frio rodou a minha capa aos pés.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

Pablo Neruda

quarta-feira, abril 19, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 9 - Pablo Neruda


Ébrio de terebintina e longos beijos, estival, o veleiro das rosas eu dirijo, dobrado para a morte do finíssimo dia, cimentado no sólido frenesi marinho.

Pálido e amarrado à minha água devorante passo no azedo cheiro do clima descoberto, vestido ainda de cinzento e sons amargos, e uma cimeira triste de abandonada espuma.

Vou, duro de paixões, montado na minha onda, única, lunar, solar, ardente e frio, repentino, adormecido na garganta das afortunadas ilhas brancas e doces como nádegas frescas.

Treme na úmida noite o meu vestido de beijos loucamente carregado de elétricas gestões, de modo heroico dividido em sonhos e embriagadoras rosas exercitando-se em mim.

Contra a corrente, no meio das ondas externas,o teu paralelo corpo aperta-se nos meus braços

como um peixe infinitamente amarrado à minha alma rápido e lento na energia sub celeste.

domingo, abril 16, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 7 - Pablo Neruda

Inclinado nas tardes lanço as minhas tristes redes

aos teus olhos oceânicos.

Ali se estira e arde na mais alta fogueira
a minha solidão que esbraceja como um náufrago.

Faço rubros sinais sobre os teus olhos ausentes
que ondeiam como o mar à beira de um farol.

Somente guardas trevas, fêmea distante e minha,
do teu olhar emerge às vezes o litoral do espanto.

Inclinado nas tardes deito as minhas tristes redes
a esse mar que sacode os teus olhos oceânicos.

Os pássaros noturnos debicam as primeiras estrelas
que cintilam como a minha alma quando te amo.

Galopa a noite na sua égua sombria
derramando espigas azuis por sobre o campo.

quarta-feira, abril 12, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 6 - Pablo Neruda

Recordo-te como eras no outono passado.
Eras a boina cinzenta e o coração em calma.

Nos teus olhos lutavam as chamas do crepúsculo.
E as folhas caíam na água da tua alma.


Fincada nos meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhia a tua voz lenta e em calma.


Fogueira de estupor onde a minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre a minha alma.


Sinto viajar os teus olhos e é distante o outono:
boina cinzenta, voz de pássaro e coração de casa
para onde emigravam os meus profundos desejos
e caíam os meus beijos alegres como brasas.


Céu visto de um navio. Campo visto dos montes:
a lembrança é de luz, de fumo, de lago em calma!


Para lá dos teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam na tua alma.

domingo, abril 09, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 4 - Pablo Neruda


É a manhã cheia de tempestade

no coração do verão.

Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens
que o vento sacode com as viageiras mãos. 

Inumerável coração do vento 
pulsando sobre o nosso silêncio apaixonado. 

Zumbindo entre as árvores, orquestral e divino, 
como uma língua cheia de guerras e de cantos. 

Vento que leva em rápido roubo a ramaria 
e desvia as flechas latentes dos pássaros. 

Vento que a derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados. 

Despedaça-se e submerge o seu volume de beijos 
combatido na porta do vento do verão. 

Pablo Neruda

quarta-feira, abril 05, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 3 - Pablo Neruda

Ah vastidão de pinheiros,
rumor de ondas quebrando,
lento jogo de luzes, sino tão solitário,
crepúsculo caindo nos olhos, boneca,
búzio terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e a alma foge-me neles
como tu desejares e para onde tu quiseres.

Marca-me o caminho no teu arco de esperança
e soltarei em delírio a minha revoada de flechas.

Em torno de mim já vejo a tua cintura de névoa
e o teu silêncio acossa as minhas horas perseguidas,
e és tu com os teus braços de pedra transparente
onde ancoram meus beijos e a úmida ânsia faz ninho.

Ah a tua voz misteriosa que o amor escurece e dobra
no entardecer ressoante e morrendo!

Assim em horas profundas sobre os campos eu vi
dobrarem-se as espigas na boca do vento.

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.

Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.


Pablo Neruda

domingo, abril 02, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 2 - Pablo Neruda

Na sua chama mortal 
te envolve a luz.

Absorta, pálida do assim postada contra as velhas hélices do crepúsculo que em torno de ti dá voltas.

Muda, minha amiga, sozinha na solidões desta hora de mortes e cheia das vidas do fogo, herdeira pura do dia destruído.

Do sol desabam uvas no teu vestido escuro.

Da noite as grandes raízes crescem de súbito na tua alma, e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas, de modo que um povo pálido e azul de ti recém-nascido se alimenta.

Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava do círculo que em negro e doirado acontece: erguida, tenta e alcança uma criação tão viva que morrem suas flores, e cheia é de tristeza.

sábado, abril 01, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 1 - Pablo Neruda

Este mês o Prince Cristal homenageia Pablo Neruda
Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas, assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.

O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti e faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel.

De mim fugiam os pássaros, e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.

Para sobreviver forjei-te como uma arma, como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.

Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.

Ah, os copos do peito!

Ah os olhos de ausência!

Ah as rosas do púbis!

Ah a tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.

Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!

Escuros regos onde a sede eterna continua, e a fadiga continua, e a dor infinita.


Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada é um livro de poesia do poeta chileno Pablo Neruda, onde se cruza o erotismo da poesia que celebra o corpo da mulher, com o gosto que Neruda tem pela natureza. 

Nestes poemas, é frequente que os dois planos se cruzem, havendo uma certa identificação entre o corpo feminino e o mundo natural (as paisagens, a terra...).

Neruda escreveu estes poemas quando tinha cerca de vinte anos, mas são alguns dos mais celebrados da sua obra.

O livro foi publicado em 15 de junho de 1924.

domingo, março 26, 2017

Sossega, coração! Não desesperes! - Fernando Pessoa

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.

Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

sábado, março 25, 2017

Confissão - Mario Quintana


Que esta minha paz e este meu amado silêncio, não iludam a ninguém.

Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta, nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios.

Acho-me relativamente feliz porque nada de exterior me acontece… mas, em mim, na minha alma, pressinto que vou ter um terremoto!

quinta-feira, março 23, 2017

O Teu Riso - Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso.

Não me tires a rosa, a lança que desfolhas, a água que de súbito brota da tua alegria, a repentina onda de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso com os olhos cansados às vezes por ver que a terra não muda, mas ao entrar teu riso sobe ao céu a procurar-me e abre-me todas as portas da vida.

Meu amor, nos momentos mais escuros solta o teu riso e se de súbito vires que o meu sangue mancha as pedras da rua, ri, porque o teu riso será para as minhas mãos como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono, teu riso deve erguer sua cascata de espuma, e na primavera, amor, quero teu riso como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora.

Ri-te da noite, do dia, da lua, ri-te das ruas tortas da ilha, ri-te deste grosseiro rapaz que te ama, mas quando abro os olhos e os fecho, quando meus passos vão, quando voltam meus passos, nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu riso, porque então morreria.


Pablo Neruda

terça-feira, março 21, 2017

Os teus pés - Pablo Neruda

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

sábado, março 18, 2017

Passagem das horas - Fernando Pessoa

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi
através das janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto,
é pouco para o que eu quero.


Fernando Pessoa
em 22/5/1916

sexta-feira, março 17, 2017

Poema do amigo aprendiz - Fernando Pessoa

Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.

Nem tão longe e nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu possa.

Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,

Da maneira mais discreta que eu souber.


Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.

Sem forçar tua vontade.

Sem falar, quando for hora de calar.

E sem calar, quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais.


Simplesmente, calmamente, ser-te paz.

É bonito ser amigo, mas confesso:
é tão difícil aprender!

E por isso eu te suplico paciência.

Vou encher este teu rosto de lembranças,

Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…





Fernando Pessoa

quinta-feira, março 16, 2017

O Luar - Mario Quintana

O luar,
é a luz do Sol que está sonhando.

O tempo não pára!
A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...

...os verdadeiros versos não são para embalar,
mas para abalar...

A grande tristeza dos rios é não poderem levar a tua imagem...

terça-feira, março 14, 2017

Amor é bicho instruído - Carlos Drummond

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.

Pronto, o amor se estrepou.

Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

domingo, março 12, 2017

Amigos na vida - Prince Cristal

Deixamos de nos falar,
Mas, enquanto houver amizade,
O vivido será saudade.

O tempo passa,
Mas, se a amizade permanecer,
Fará nos reaproximar e querer.

O tempo passa,
Cada vez de forma diferente e inesquecível cada momento consciente,
Que juntos vivemos e nos lembraremos eternamente.

O tempo passa,
Pode ser que um dia não mais existamos, mas, se ainda houver amizade,

Nasceremos de novo, e próximos com divindade.


sábado, março 11, 2017

Serena voz imperfeita - Fernando Pessoa

Serena voz imperfeita, eleita
Para falar aos deuses mortos.


A janela que falta ao teu palácio deita
Para o Porto todos os portos.

Faísca da ideia de uma voz soando
Lírios nas mãos das princesas sonhadas,
Eu sou a maré de pensar-te, orlando
A Enseada todas as enseadas.

Brumas marinhas esquinas de sonho…
Janelas dando para o Tédio os charcos…


E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho,
Do convés do Barco todos os barcos…


Fernando Pessoa

sexta-feira, março 10, 2017

Noite - Cecilia Meireles

Úmido gosto de terra,
cheiro de pedra lavada
tempo inseguro do tempo!
sombra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.

Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
lábio da voz sem ventura!
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.

A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
sozinha, com o seu perfume!
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.

Bem que a vida estava quieta.

Mas passava o pensamento...
de onde vinha aquela música?

E era uma nuvem repleta,
entre as estrelas e o vento.



Cecília Meireles
poesia do livro "Viagem" de 1938

quarta-feira, março 08, 2017

Talvez - Pablo Neruda

Talvez não ser, é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio dia
com uma flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento.

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…

E por amor
Serei… Serás…Seremos…

domingo, março 05, 2017

Amores que aprisionam - Prince Cristal

Existem amores que aprisionam,
que excedem,
e desejam para si...

Amores que enlouquecem
E deixam de ser amores...
que a íris possa ver,
libertar e verdadeiramente amar.


sábado, março 04, 2017

Se recordo - Fernando Pessoa

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.

Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.

E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.

Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui 
São sonhos diferentes.

Fernando Pessoa

sexta-feira, março 03, 2017

Quem ama inventa - Mario Quintana

Quem ama inventa as coisas a que ama…
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava…

E era um revoo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições…

Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho…

Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado… e ter vivido o sonho!

terça-feira, fevereiro 28, 2017

Reverência ao Destino - Carlos Drumonnd

Falar é completamente fácil, quando se têm palavras em mente que expressem sua opinião.

Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.

Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros,ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.

Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.

Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer. Ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.

Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.

Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar

Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?".

Difícil é dizer "adeus". Principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.

Difícil é sentir a energia que é transmitidan aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.

Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar. E aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.

Difícil é ouvir a sua consciência. Acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.

Difícil é seguí-las. Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.

Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. Ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.

Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.

Difícil é entregar a alma. Sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.

Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.

Difícil é ocupar o coração de alguém. Saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.

Difícil é lutar por um sonho.

Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade,que se petrifica,e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, fevereiro 26, 2017

Lembranças - Prince Cristal

Eu lembrarei apenas as coisas das boas.

Embora rápidas...

Lembrarei no modo como me beijou,
da voz suave e carinhosa
das ligações amorosas.

Lembrarei dos filmes que assistimos juntos e das músicas que disse gostar.

Lembrarei das palavras ousadas
das nossas imagens enroscadas,
do suor e dos gemidos de prazer.

Lembrarei do seu choro nos meus braços.

Não me lembrarei das coisas ditas,
não pensadas e não cumpridas,
mal contadas, mal explicadas e das 

indecisões.

Não me lembrarei da ausência,
das falas tão suaves
e que agora parecem mentiras.

Não, não me lembrarei de você
como uma mulher indecisa ou ardilosa,
lembrarei somente das coisas boas.

Desisto da dor da decepção desnecessária.



sábado, fevereiro 25, 2017

Alva - Cecilia Meireles

Deixei meus olhos sozinhos
nos degraus da sua porta. 

Minha boca anda cantando,
mas todo o mundo está vendo
que a minha vida está morta. 

Seu rosto nasceu das ondas
e em sua boca há uma estrela.

Minha mão viveu mil vidas
para uma noite encontrá-la
e noutra noite perdê-la.
Caminhei tantos caminhos,
tanto tempo e não sabia
como era fácil a morte
pela seta do silêncio
no sangue de uma alegria.

Seus olhos andam cobertos
de cores da primavera.
Pelos muros de seu peito,
durante inúteis vigílias,
desenhei meus sonhos de hera.

Desenho, apenas, do tempo,
cada dia mais profundo,
roteiro do pensamento,
saudade das esperanças
quando se acabar o mundo...

quinta-feira, fevereiro 23, 2017

Grandes são os desertos - Fernando Pessoa

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.

Grandes são os desertos
e as almas desertas e grandes.

Desertas porque não passa por elas
senão elas mesmas,


Grandes porque de ali se vê tudo,
e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião
que eu não perdesse.

Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia
com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta
(à parte o incômodo de estar assim sentado)

Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
Arrumo melhor a mala com os olhos
de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias
(e creio que digo bem)

Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança
a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,

A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese
e a mala na razão.

Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida,
tenho ficado sentado
sobre o canto das camisas empilhadas,

A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis,
destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.

A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.

Olho para o lado, verifico que estou a dormir.

Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes
e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto,
mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.

Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.




Fernando Pessoa
como Álvaro de Campos

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Tinha o trono onde ter uma rainha - Fernando Pessoa

Eh, como outrora era outra a que eu não tinha!
Como amei quando amei! 

Ah, como eu via
Como e com olhos de quem nunca lia
Tinha o trono onde ter uma rainha.

Sob os pés seus a vida me espezinha.
Reclinando-te tão bem? A tarde esfria…
Ó mar sem cais nem lado nem maresia,
Que tens comigo, cuja alma é a minha?

Sob uma umbela de chá em baixo estamos
E é subita a lembrança
Da velha quinta e do espalmar dos ramos.

Sob os quais a merendar 

- Oh, amor da glória!
Fecharam-me os olhos para toda a história!
Como sapos saltamos e erramos…


Fernando Pessoa

domingo, fevereiro 19, 2017

Lute - Prince Cristal

Desejo é não é tudo.

Lute para ter paz.

Lute pelos seus sonhos.

Lute para não ser controlado. 

Lute para ser o senhor do seu destino.

Lute para ter o amor que merece. 

Lute para ser feliz. 

Lute!


sábado, fevereiro 18, 2017

Espécie de homem que sou - Fernando Pessoa

É necessário agora que eu diga que espécie de homem sou.

Meu nome, não importa, nem qualquer outro pormenor exterior meu próprio.

Devo falar de meu caráter. 
A constituição inteira de meu espírito é de hesitação e de dúvida. 
Nada é ou pode ser positivo para mim; todas as coisas oscilam em torno de mim, e, com elas, uma incerteza para comigo mesmo.

Tudo para mim é incoerência e mudança.
Tudo é mistério e tudo está cheio de significado.
Todas as coisas são ‘desconhecidas’, simbólicas do desconhecido.

Em conseqüência, o horror, o mistério, o medo por demais inteligente. Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo ambiente que me cercou a infância, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isto meu caráter é da espécie interiorizada, concentrada, muda, não auto-suficiente, mas perdida em si mesma.

Toda a minha vida tem sido de passividade e de sonho.


Fernando Pessoa
 O livro do desassossego
The Fabulous World of Jules Verne - film 1958 by Karel Zeman

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

O Haver - Vinicius de Moraes

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura. Essa intimidade perfeita com o silêncio. Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.

– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido… 

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo essa mão que tateia antes de ter, esse medo de ferir tocando, essa forte mão de homem cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos essa inércia cada vez maior diante do Infinito.

Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível essa irredutível recusa à poesia não vivida. 

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade do tempo, essa lenta decomposição poética em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. 

Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas, essa tristeza diante do cotidiano; ou essa súbita alegria ao ouvir passos na noite que se perdem sem história… 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa piedade de si mesmo e de sua força inútil. 

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado de pequenos absurdos, essa capacidade de rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil e essa coragem para comprometer-se sem necessidade. 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza de quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser e ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje. 

Resta essa faculdade incoercível de sonhar de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é, e essa visão ampla dos acontecimentos, e essa impressionante e desnecessária presciência, e essa memória anterior de mundos inexistentes, e esse heroísmo estático, e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas dão o nome de esperança. 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos de refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória.

Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino. 

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade pelo momento a vir, quando, apressada ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada… 

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto. Esse eterno levantar-se depois de cada queda. Essa busca de equilíbrio no fio da navalha. Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo.

Infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes