domingo, novembro 19, 2017

Evolução - Mario Quintana


Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais

e ficamos repousando no fundo do mar.

O mar onde tudo recomeça…

Onde tudo se refaz…

Até que, um dia, nós criaremos asas.

E andaremos no ar como se anda em terra.

domingo, novembro 12, 2017

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre - Fernando Pessoa


Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja.

Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos.

Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.

Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.



Fernando Pessoa
como Ricardo Reis

domingo, novembro 05, 2017

Eu Prometo - Geraldo Souza

Eu prometo não te prometer nada
Nem te amar para sempre
Nem não te trair nunca 
Nem não te deixar jamais 

Estou aqui, te sinto agora, 
sem máscaras nem artifícios 
e quero ficar apenas 
enquanto for bom para os dois que cada um fique 

Nada a te oferecer senão eu mesmo 
Nada a te pedir senão que sejas quem tu és 
A verdade é o que de melhor temos para compartilhar 

Tuas coisas continuam tuas e as minhas, minhas. 

Nada de mudarmos tudo na loucura de tornar eterno 
esse breve instante que passa. 

Se crescermos como pessoas, 
ainda que em direções opostas, 
saberemos nos amar pelo que somos, 
sem medo ou vergonha 
de nos revelarmos um ao outro por inteiro, 
tal como a gente é.

Não te prendo e não permito que me prendas.

Nenhuma corrente pode deter o curso da vida.
Nenhuma promessa pode substituir amor.

Quero que sejas livre como eu próprio quero ser 
Companheiros de uma viagem que estará recomeçando 
cada vez que a gente se encontrar. 


Texto de Geraldo E. de Souza
O Prince acredita no amor, na verdade, no presente e sem promessas!

domingo, outubro 29, 2017

Residuo - Carlos Drummond de Andrade


De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço vazio de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão.
Às vezes um rato

Carlos Drummond de Andrade

domingo, outubro 22, 2017

O Inseto - Pablo Neruda

Das tuas ancas aos teus pés quero fazer uma longa viagem.

Sou mais pequeno que um inseto.

Percorro estas colinas, são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos que só eu conheço,
centimetros queimados, pálidas perspectivas.

Há aqui um monte. Nunca dele sairei.

Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo umedecido!

Pelas tuas pernas desço tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda como os ásperos cumes
dum claro continente.

Para teus pés resvalo para as oito aberturas
dos teus dedos agudos, lentos, peninsulares,
e deles para o vazio do lençol branco
caio, procurando cego e faminto teu contorno
de vaso escaldante! 

Pablo Neruda
Imagens de Vicent Van Gogh

domingo, outubro 15, 2017

Segue o teu destino - Fernando Pessoa

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Fernando Pessoa 
como Ricardo Reis em 1916

domingo, outubro 08, 2017

Um dia acordarás - Mario Quintana

Um dia acordarás num quarto novo
sem saber como foste para lá
e as vestes que acharás ao pé do leito
de tão estranhas te farão pasmar,
A janela abrirás, devagarinho:
Fará nevoeiro e tu nada verás…
Hás de tocar, a medo, a campainha
e, silenciosa, a porta se abrirá.
E um ser, que nunca viste, em um sorriso
triste, te abraçará com seu maior carinho
e há de dizer-te para teu assombro:
- Não te assustes de mim, que sofro a tanto!
Quero chorar - apenas - no teu ombro
e devorar teus olhos, meu amor…

Mario Quintana

domingo, outubro 01, 2017

Flor de Lótus - Prince Cristal

A Flor de Lótus (Nelumbo Nucífera), também conhecida como Lótus Egípcio, Lótus Sagrado e Lótus da Índia, é uma planta da família das Ninfáceas (mesma família da vitória-régia) nativa do sudeste da Ásia (Japão, Filipinas e Índia, principalmente).
Os povos orientais têm esta flor como símbolo da espiritualidade, pois acreditam que ela desabrocha aqui na Terra somente depois de ter nascido no mundo espiritual. 
O puro lótus branco, a única planta que frutifica e floresce simultaneamente, emerge das profundezas dos pântanos e simboliza a manifestação da natureza universal de Buda ou a consciência de Cristo.
Suas flores são consideradas sagradas pelos budistas da Índia, Tibet, e China.
As flores de lótus foram muito usadas na arte e na arquitetura do Egito antigo.
Nas pinturas tibetanas linhagens de budas e homens santos aparecem flutuando sobre flores de lótus - uma representação dos tronos da suprema espiritualidade. Nas escrituras budistas, no Tibete, conta-se que milagrosamente o pequeno Buda já podia andar ao nascer e que a cada passo que a criança “iluminada” dava, brotavam-lhe flores de lótus de suas pegadas ...
uma das assinaturas de sua origem divina.

Na Índia a planta está relacionada com a criação do mundo. De acordo com as escrituras indianas foi do umbigo de Deus Vishnu que teria nascido uma brilhante flor de lótus e desta teria surgido outra divindade, isto é, Brahma, o criador do cosmo.
Um dos mais interessantes relatos da mitologia egípcia sobre a origem de nosso planeta conta que num tempo muito distante, quando o universo ainda não existia, um cálice de lótus com as pétalas fechadas flutuava nas trevas, um relato que faz lembrar a declaração bíblica que diz: 
“E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”.
Entediada com o vazio, a flor pediu ao Deus Sol Rá (uma divindade andrógina, simultaneamente masculina e feminina) que criasse o universo. 
Tendo criado, a flor agradecida pelo desejo realizado passou a abrigar o Deus Sol em suas pétalas durante a noite de onde ele sai ao amanhecer para iluminar a sua criação.

domingo, setembro 24, 2017

Nossa Loucura - Mario Quintana

“ Nossa loucura é a mais sensata das emoções;
tudo o que fazemos 
deixamos como exemplo
para os que sonham um dia 
serem assim como nós:
LOUCOS
…mas FELIZES !!! “

domingo, setembro 17, 2017

Primavera - Fernando Pessoa

Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos 
até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome;
e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, 
andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos 
ver-te colher flores.

Eu já te vejo amanhã a colher flores 
comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e
andares comigo no campo a colher flores,

Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Fernando Pessoa
como Alberto Caieiro

domingo, setembro 10, 2017

Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

Por que hás-de tentar ser como os outros, se estás condenado a ti?

Para que hás-de rir, se, quando ris, a tua própria alegria sincera é falsa, porque nasce de te esqueceres de quem és? 

Para que hás-de chorar, se sentes que de nada te serve, e choras mais as lágrimas não te consolarem, que porque as lágrimas te consolem?

Se és feliz quando ris, quando ris venci; se então és feliz, porque te não lembras de quem és, quão mais feliz serás comigo, onde não mais te lembrarás de nada?

Se descansas perfeitamente, se acaso dormes sem sonhar, como não descansarás no meu leito, onde o sono nunca tem sonhos?

Se um momento te elevas, porque vês a Beleza, e te esqueces de ti e da vida, como não te elevarás no meu palácio, cuja beleza noturna não sofre discordância, nem idade, nem corrupção; nas minhas salas onde nenhum vento perturba os reposteiros, nenhum pó cobre os espaldares, nenhuma luz desbota, pouco a pouco, os veludos e os estofos, nenhum tempo amarelece a brancura dos ornatos brancos.

Vem ao meu carinho, que não sofre mudança; ao meu amor, que não tem cessação! Bebe da minha taça, que não se esgota, o néctar supremo que não enjoa nem amarga, que não desgosta nem inebria. 

Contempla, da janela do meu castelo, não o luar e o mar, que são coisas belas e por isso imperfeitas; mas a noite vasta e materna, o esplendor indiviso do abismo profundo!

Nos meus braços esquecerás o próprio caminho doloroso que te trouxe a eles.

Fernando Pessoa como Bernardo Soares
 Livro do desassossego
Recomendação de leitura do Prince para todas as pessoas que buscam seu verdadeiro eu.

domingo, setembro 03, 2017

Inconstância - Florbela Espanca

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…


Florbela Espanca

domingo, agosto 27, 2017

Em horas inda Louras, Lindas - Fernando Pessoa

Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas. 

Mas em torno à tarde se entorna 
A atordoar o ar que arde 
Que a eterna tarde já não torna ! 
E o tom de atoarda todo o alarde 
Do adornado ardor transtorna 
No ar de torpor da tarda tarde. 

E há nevoentos desencantos 
Dos encantos dos pensamentos 
Nos santos lentos dos recantos 
Dos bentos cantos dos conventos... 
Prantos de intentos, lentos, tantos 
Que encantam os atentos ventos. 

Fernando Pessoa 
do livro Cancioneiro

domingo, agosto 20, 2017

Não sei... Se a vida é curta - Cora Coralina

Não sei... Se a vida é curta 
Ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido, 
se não tocamos o coração das pessoas. 
Muitas vezes basta ser: 
Colo que acolhe, 
Braço que envolve, 
Palavra que conforta, 
Silêncio que respeita, 
Alegria que contagia, 
Lágrima que corre, 
Olhar que acaricia, 
Desejo que sacia, 
Amor que promove. 
E isso não é coisa de outro mundo, 
É o que dá sentido à vida. 
É o que faz com que ela 
Não seja nem curta, 
Nem longa demais, 
Mas que seja intensa, 
Verdadeira, pura... 
Enquanto durar 

Cora Coralina

quarta-feira, agosto 16, 2017

Palavras para a minha mãe - Jose L. Peixoto


Mãe, tenho pena.

Esperei sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.

Sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

Pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

Às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

Lê isto: mãe, amo-te.

Eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.


José Luís Peixoto
 in “A Casa, a Escuridão”

domingo, agosto 13, 2017

Eros e Psique - Fernando Pessoa


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Poesia de Fernando Pessoa.
Quadro de Bouguereau
Le ravissement de Psyche.

domingo, agosto 06, 2017

Ardo - Nietzche

"Sim, sei de onde venho!
Ardo para me consumir.

Aquilo em que toco torna-se luz,
carvão aquilo que abandono.

Sou certamente labareda!"



Friedrich Nietzsche

domingo, julho 30, 2017

Ausência - Fernando Pessoa

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo,
imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo,
não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.


Fernando Pessoa

sábado, julho 22, 2017

Magnificat - Fernando Pessoa

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?


Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.


As estrellas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.


O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.


Quando é que passará este drama sem theatro,
Ou este theatro sem drama,
E recolherei a casa?


Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida,
Quem tens lá no fundo?


É Esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.


Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma: será dia!



Fernando Pessoa 
como Álvaro de Campos em 07/11/1933

quarta-feira, julho 19, 2017

Meu Filho - Prince Cristal

Escolhi este dia para te homenagear chegando aos 26 anos. 

Olho nos seus olhos e vejo o mar. 

E na sua ausência a maior riqueza passar.

Estou distante e tão perto, mas sempre a te amar.

Obrigado por me ajudar a ser simples, escrever e cantar.

Triste por não tê-lo tanto tempo na visão, mas... 

Feliz por tê-lo no coração.

Mesmo distante você me torna grande e especial.

E algum dia imortal!

do seu...

Pai

domingo, julho 16, 2017

Último Poema - Manuel Bandeira


Assim eu quereria o meu último poema ...

Que fosse terno dizendo as coisas 
mais simples e menos intencionais 

Que fosse ardente como um soluço 
sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores 
quase sem perfume 

A pureza da chama em que se consomem 
os diamantes mais límpidos 

A paixão dos suicidas 
que se matam sem explicação. 

Manuel Bandeira

domingo, julho 09, 2017

Carlos Drummond de Andrade

Poeta, contista e cronista mineiro 
(1902-1987).

Considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura latino-americana.

Nasce e passa a infância numa fazenda em Itabira.

Estuda em Belo Horizonte e em Nova Friburgo (RJ).

Forma-se em Farmácia (1925) em Ouro Preto, mas não exerce a profissão.

Volta a Belo Horizonte, onde frequenta as rodas de escritores.

Integra o grupo que funda A Revista, publicação literária de tendência nacionalista que se torna o veículo mais importante do modernismo mineiro.

Em 1926, entra para o jornalismo no Diário de Minas.

Lança o primeiro livro, Alguma Poesia, em 1930 e, quatro anos depois, assume a chefia de gabinete do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Permanece no serviço público até a aposentadoria.

Ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) no início dos anos 40, escreve poesias de fundo social, como Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo (1945). Mas a indignação pelas desigualdades sociais não lhe tira o profundo lirismo, o senso de humor e a emoção contida.

A partir de Claro Enigma (1951), volta a registrar o vazio da vida humana e o absurdo do mundo.

Em 1954 passa a escrever crônicas no Correio da Manhã e, em 1969, no Jornal do Brasil. Entre suas obras estão Lição de Coisas (1962), Os Dias Lindos (crônicas, 1978) e Boca de Luar (crônicas, 1984). (Dados extraídos do Almanaque Abril Cultural 1997)

"Entre as diversas formas de mendicância , a mais humilhante é a do amor implorado."

"Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la."

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"

"Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida."

"O problema não é inventar. É ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente."

"Eu nunca tive pretensões a nada na vida, nunca pretendi ser rico ou poderoso e nem mesmo feliz. Na medida do possível, acho que vivi uma vida tranquila. Posso ter errado muitas vezes, mas valeu a pena. Foi bom."

Carlos Drummond de Andrade

domingo, julho 02, 2017

Nossos desejos vão ficando para trás


Trago para vocês uma fábula para que vocês pensem mais no que deixamos para trás apenas para representar um bom papel.

Quantos desejos e necessidades não matamos apenas para representar bem o papel que esperam de nós.


Devemos viver para realizar um sonho e acreditar na vida eterna!

E quando vivemos para agradar as outras pessoas...

Eu me lembro da fábula do burro !


Um homem ia com o filho levar um burro para vender no mercado.

– O que você tem na cabeça para levar um burro estrada afora sem nada no lombo enquanto você se cansa? – disse um homem que passou por eles. 

Ouvindo aquilo, o homem montou o filho no burro, e os três continuaram seu caminho.
– Ô rapazinho preguiçoso, que vergonha deixar o seu pobre pai, um velho andar a pé enquanto vai
montado! – disse outro homem com quem cruzaram

O homem tirou o filho de cima do burro e montou ele mesmo. 

Passaram duas mulheres e uma disse para a outra:

– Olhe só que sujeito egoísta! Vai no burro e o filhinho a pé, coitado...

Ouvindo aquilo, o homem fez o menino montar no burro na frente dele. 

O primeiro viajante que apareceu na estrada perguntou ao homem:

– Esse burro é seu?

O homem disse que sim. O outro continuou:

– Pois não parece, pelo jeito como o senhor trata o bicho. Ora, o senhor é que devia carregar o burro em lugar de fazer com que ele carregasse duas pessoas.
Na mesma hora o homem amarrou as pernas do burro num pau, e lá se foram pai e filho aos tropeções carregando o animal para o mercado.

Quando chegaram, todo mundo riu tanto que o homem, enfurecido, jogou o burro no rio, pegou o filho pelo braço e voltou para casa. 

Do livro: Fábulas de Esopo.
Quem quer agradar todo mundo, no fim, não agrada ninguém e nunca a si mesmo

sexta-feira, junho 30, 2017

Oração Celta


I
Que jamais, em tempo algum,
o teu coração acalente ódio.

Que o canto da maturidade
jamais asfixie a tua criança interior.

Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.

Que as perdas do teu caminho
sejam sempre encaradas como lições de vida.

Que a musica seja tua companheira
de momentos secretos contigo mesmo.

Que os teus momentos de amor contenham a magia
de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis
olhando a luz da vida em cada amanhecer.

Que cada dia seja um novo recomeço,
onde tua alma dance na luz.

Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas
de tua passagem em cada coração.

Que em cada amigo o teu coração faça festa,
que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.

Que em teus momentos de solidão e cansaço,
esteja sempre presente em teu coração
a lembrança de que tudo passa e se transforma,
quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente,
para que tu percebas a ternura invisível,
tocando o centro do teu ser eterno.

Que um suave acalento te acompanhe, na terra ou no espaço,
e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.

Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!

Que os teus pensamentos e os teus amores,
o teu viver e a tua passagem pela vida,
sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.

Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto,
viajando eternamente no centro do teu ser.

Que este amor transforme os teus dramas em luz,
a tua tristeza em celebração,
e os teus passos cansados
em alegres passos de dança renovadora.

Que jamais,
em tempo algum,
tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.

Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!




II

Que a estrada se abra à sua frente,

Que o vento sopre levemente às suas costas,

Que o sol brilhe morno e suave em sua face,

Que a chuva caía de mansinho em seus campos...

E, até que nos encontremos de novo,

Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.




III

Que despertes para o mistério de estar aqui
e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.

Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.

Que respondas ao chamado do teu Dom
e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.

Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante
e que a ansiedade jamais te ronde.

Que a tua dignidade exterior
reflita uma dignidade interior da alma.

Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos
que não buscam atenção.

Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.

Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada
tecida em torno do cerne do assombro.


 Deus nos Abençoe