quinta-feira, junho 21, 2018

Inverno - Cecilia Meireles

Choveu tanto sôbre o teu peito

que as flores não podem estar vivas
e os passos perderam a fôrça
de buscar estradas antigas.

Em muita noite houve esperanças
abrindo as asas sôbre as ondas. 

Mas o vento era tão terrível!
Mas as águas eram tão longas!


Pode ser que o sol se levante

sôbre as tuas mãos sem vontade
e encontres as coisas perdidas
na sombra em que as abandonaste. 

Mas quem virá com as mãos brilhantes
trazendo o seu beijo e o teu nome,
para que saibas que és tu mesmo,
e reconheças o teu sonho?

A primavera foi tão clara
que se viram novas estrêlas,
e soaram no cristal dos mares,
lábios azues de outras sereias. 

Vieram, por ti, músicas límpidas,
trançando sons de ouro e de sêda. 

Mas teus ouvidos noutro mundo
desalteravam sua sêde.

Cresceram prados ondulantes
e o céu desenhou novos sonhos,
e houve muitas alegorias
navegando entre Deus e os homens. 

Mas tu estavas de olhos fechados
prendendo o tempo em teu sorriso. 

E em tua vida a primavera
não poude achar nenhum motivo...



Cecília Meireles

domingo, fevereiro 25, 2018

Da a Surpresa de Ser - Fernando Pessoa

Da a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro,
faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gnomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?

Ó fome, quando é que eu como?



Fernando Pessoa

domingo, fevereiro 18, 2018

O espelho não me prova que envelheço - Shakespeare


O espelho não me prova que envelheço
Enquanto andares par com a mocidade;
Mas se de rugas vir teu rosto impresso,
Já sei que a Morte a minha vida invade.

Pois toda essa beleza que te veste
Vem de meu coração, que é teu espelho;
O meu vive em teu peito, e o teu me deste:
Por isso como posso ser mais velho?
Portanto, amor, tenhas de ti cuidado
Que eu, não por mim, antes por ti, terei;
Levar teu coração, tão desvelado

Qual ama guarda o doce infante, eu hei.
E nem penses em volta, morto o meu,
Pois para sempre é que me deste o teu. 

domingo, fevereiro 11, 2018

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam - F. Pessoa

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam.

Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa.

Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico.

Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

Fernando Pessoa 
como Bernardo Soares
Imagem do inesquecível filme Casablanca

domingo, fevereiro 04, 2018

O Amor é grande - Carlos Drummond

O mundo
é grande e cabe
nesta janela sobre o mar. 

O mar 
é grande e cabe 
na cama e no colchão de amar. 

O amor 
é grande e cabe 
no breve espaço de beijar.

Carlos Drumonnd de Andrade

domingo, janeiro 28, 2018

No meio do Caminho - Carlos Drummond

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho
tinha uma pedra.

Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.


Carlos Drummond de Andrade


Sempre teremos pedras em nosso caminho...
Olhemos tudo no caminho que terá sempre dificuldades e assim evitaremos muito! ... sofrer.


domingo, janeiro 21, 2018

A minha dor - Florbela Espanca

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve…

ninguém vê…
ninguém…

Florbela Espanca

domingo, janeiro 14, 2018

Autopsicografia - Fernando Pessoa



O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor


A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve, 

Na dor lida sentem bem, 

Não as duas que ele teve, 

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda 

Gira, a entreter a razão, 

Esse comboio de corda 

Que se chama coração. 



Fernando Pessoa

domingo, janeiro 07, 2018

Viva hoje - Pablo Neruda

Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar,

Morre lentamente 
Quem se transforma em escravo do hábito
Repetindo todos os dias os mesmos trajetos.
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor 
Ou não conversa com quem não conhece. 

Morre lentamente quem evita uma paixão
E seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos olhos 
E os corações aos tropeços. 

Morre lentamente quem não vira a mesa
Quando está infeliz com o seu trabalho ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto 
Para ir atrás de um sonho. 

Quem não se permite 
Pelo menos uma vez na vida, 
Fugir dos conselhos sensatos... 



Pablo Neruda
Viva hoje!
Arrisque hoje!
Faça hoje!
Não se deixe morrer lentamente!
Não se esqueça de ser feliz!

domingo, dezembro 31, 2017

Ano Novo - Mario Quintana

Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua,
mas apenas recomeça...


Texto genial de Mario Quintana
Desejo a cada um de vocês,
 que recomessem sempre.
Feliz 2018 !

domingo, dezembro 24, 2017

Poema de Natal - Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados


Para chorar e fazer chorar


Para enterrar os nossos mortos

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes
Livro "Antologia Poética", Rio de Janeiro, 1960.

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Sonhos de uma noite de verão - Shakespeare

Há quem diga que

todas as noites são de sonhos.

Mas há também quem diga nem todas,
só as de verão...

Mas no fundo
isso não tem muita importância.

O que interessa mesmo
não são as noites em si,

São os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre.

Em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.


"Sonhos de uma noite de verão"
Peça de William Shakespeare

domingo, dezembro 17, 2017

A mulher que passa - Vinicius de Moraes

Meu Deus,
eu quero a mulher que passa.

Seu dorso frio
é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda,
mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites,
dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.

Teus pelos são relva boa
Fresca e macia.

Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus,
eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus,
eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.

domingo, dezembro 10, 2017

Adiamento - Fernando Pessoa

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, 
E assim será possível; mas hoje não... 
Não, hoje nada; hoje não posso.

A persistência confusa da minha subjetividade objetiva, 
O sono da minha vida real, intercalado, 
O cansaço antecipado e infinito, 
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico... 
Esta espécie de alma... 
Só depois de amanhã... 
Hoje quero preparar-me, 
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... 
Ele é que é decisivo. 
Tenho já o plano traçado; mas não,
hoje não traço planos... 
Amanhã é o dia dos planos. 
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... 
Tenho vontade de chorar, 
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... 
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.

Só depois de amanhã... 
Quando era criança o circo de Domingo
divertia-se toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de Domingo de toda a semana da minha infância... 
Depois de amanhã serei outro, 
A minha vida triunfar-se-á, 
Todas as minhas qualidades reais de inteligente,
lido e prático 
Serão convocadas por um edital... 
Mas por um edital de amanhã... 
Hoje quero dormir, redigirei amanhã... 
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância? 
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 
Que depois de amanhã é o que está bem o espetáculo... 
Antes, não...

Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.

Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca 
Só depois de amanhã... 
Tenho sono como o frio de um cão vadio.

Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 
Sim, talvez só depois de amanhã... 
O porvir... sim, o porvir...


Fernando Pessoa

domingo, dezembro 03, 2017

Ausência - Fernando Pessoa

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.


E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.


Se a não vejo,
imagino-a e sou forte como as árvores altas.


Mas se a vejo tremo,
não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Fernando Pessoa

quinta-feira, novembro 30, 2017

Tabacaria - Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto, do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?)

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, para uma rua inacessível a todos os pensamentos, real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, e não tivesse mais irmandade com as coisas senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua a fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada de dentro da minha cabeça, e uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo à Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, e à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos mas lá encontrei só ervas e árvores e quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 


Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, e a história não marcará, quem sabe?, nem um, nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? quantas aspirações altas e nobres e lúcidas

sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas, e quem sabe se realizáveis, nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela; serei sempre o que não nasceu para isso; serei sempre só o que tinha qualidades; serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, e cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, e ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente o seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, e o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.


Escravos cardíacos das estrelas, conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; mas acordamos e ele é opaco, levantamo-nos e ele é alheio, saímos de casa e ele é a terra inteira, mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

Come chocolates, pequena; come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei a caligrafia rápida destes versos, pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, nobre ao menos no gesto largo com que atiro a roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas, e fico em casa sem camisa.


Tu que consolas, que não existes e por isso consolas, ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais, ou não sei que moderno 
— não concebo bem o quê —

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!


Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco a mim mesmo e não encontro nada.


Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, vejo os cães que também existem, e tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, e tudo isto é estrangeiro, como tudo.

Vivi, estudei, amei e até cri, e hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, e penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo e que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube e o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário como um cão tolerado pela gerência

por ser inofensivo e vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis, quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, e não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
calcando aos pés a consciência de estar existindo, como um tapete em que um bêbado tropeça ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 

Olho-o com desconforto da cabeça mal voltada e com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, e a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, sempre uma coisa defronte da outra, sempre uma coisa tão inútil como a outra,

sempre o impossível tão estúpido como o real, sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), e a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 

Semiergo-me enérgico, convencido, humano, e vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los e saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria e gozo, num momento sensitivo e competente a libertação de todas as especulações e a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira e continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz.) visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)


Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!

E o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança e o Dono da Tabacaria sorriu.


Fernando Pessoa 
Álvaro de Campos em 15/01/1928
Esta é a sua mais famosa poesia !
... e hoje fazem 82 anos da despedida de Fernando Pessoa

domingo, novembro 26, 2017

Nua Poesia - Manuel Bandeira

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos
Brilham.

Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Boio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.


Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua…


Manuel Bandeira.

domingo, novembro 19, 2017

Evolução - Mario Quintana


Todas as noites o sono nos atira da beira de um cais

e ficamos repousando no fundo do mar.

O mar onde tudo recomeça…

Onde tudo se refaz…

Até que, um dia, nós criaremos asas.

E andaremos no ar como se anda em terra.

domingo, novembro 12, 2017

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre - Fernando Pessoa


Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja.

Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos.

Que a Sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.

Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.



Fernando Pessoa
como Ricardo Reis

domingo, novembro 05, 2017

Eu Prometo - Geraldo Souza

Eu prometo não te prometer nada
Nem te amar para sempre
Nem não te trair nunca 
Nem não te deixar jamais 

Estou aqui, te sinto agora, 
sem máscaras nem artifícios 
e quero ficar apenas 
enquanto for bom para os dois que cada um fique 

Nada a te oferecer senão eu mesmo 
Nada a te pedir senão que sejas quem tu és 
A verdade é o que de melhor temos para compartilhar 

Tuas coisas continuam tuas e as minhas, minhas. 

Nada de mudarmos tudo na loucura de tornar eterno 
esse breve instante que passa. 

Se crescermos como pessoas, 
ainda que em direções opostas, 
saberemos nos amar pelo que somos, 
sem medo ou vergonha 
de nos revelarmos um ao outro por inteiro, 
tal como a gente é.

Não te prendo e não permito que me prendas.

Nenhuma corrente pode deter o curso da vida.
Nenhuma promessa pode substituir amor.

Quero que sejas livre como eu próprio quero ser 
Companheiros de uma viagem que estará recomeçando 
cada vez que a gente se encontrar. 


Texto de Geraldo E. de Souza
O Prince acredita no amor, na verdade, no presente e sem promessas!

domingo, outubro 29, 2017

Residuo - Carlos Drummond de Andrade


De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço vazio de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão.
Às vezes um rato

Carlos Drummond de Andrade