quarta-feira, julho 19, 2017

Meu Filho - Prince Cristal

Escolhi este dia para te homenagear chegando aos 26 anos. 

Olho nos seus olhos e vejo o mar. 

E na sua ausência a maior riqueza passar.

Estou distante e tão perto, mas sempre a te amar.

Obrigado por me ajudar a ser simples, escrever e cantar.

Triste por não tê-lo tanto tempo na visão, mas... 

Feliz por tê-lo no coração.

Mesmo distante você me torna grande e especial.

E algum dia imortal!

do seu...

Pai

domingo, julho 16, 2017

Último Poema - Manuel Bandeira

Assim eu quereria 

o meu último poema



Que fosse terno 
dizendo as coisas 
mais simples 
e menos intencionais


Que fosse ardente 

como um soluço 

sem lágrimas

Que tivesse 
a beleza das flores
quase sem perfume

A pureza da chama 
em que se consomem
os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas
que se matam sem explicação. 

Manuel Bandeira

domingo, julho 09, 2017

Carlos Drummond de Andrade


Poeta, contista e cronista mineiro 

(1902-1987).

Considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura latino-americana.

Nasce e passa a infância numa fazenda em Itabira.

Estuda em Belo Horizonte e em Nova Friburgo (RJ).

Forma-se em Farmácia (1925) em Ouro Preto, mas não exerce a profissão.

Volta a Belo Horizonte, onde frequenta as rodas de escritores.

Integra o grupo que funda A Revista, publicação literária de tendência nacionalista que se torna o veículo mais importante do modernismo mineiro.

Em 1926, entra para o jornalismo no Diário de Minas.

Lança o primeiro livro, Alguma Poesia, em 1930 e, quatro anos depois, assume a chefia de gabinete do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Permanece no serviço público até a aposentadoria.

Ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) no início dos anos 40, escreve poesias de fundo social, como Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo (1945). Mas a indignação pelas desigualdades sociais não lhe tira o profundo lirismo, o senso de humor e a emoção contida.

A partir de Claro Enigma (1951), volta a registrar o vazio da vida humana e o absurdo do mundo.

Em 1954 passa a escrever crônicas no Correio da Manhã e, em 1969, no Jornal do Brasil. Entre suas obras estão Lição de Coisas (1962), Os Dias Lindos (crônicas, 1978) e Boca de Luar (crônicas, 1984). (Dados extraídos do Almanaque Abril Cultural 1997)

"Entre as diversas formas de mendicância , a mais humilhante é a do amor implorado."

"Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la."

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"

"Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida."

"O problema não é inventar. É ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente."

"Eu nunca tive pretensões a nada na vida, nunca pretendi ser rico ou poderoso e nem mesmo feliz. Na medida do possível, acho que vivi uma vida tranquila. Posso ter errado muitas vezes, mas valeu a pena. Foi bom."

Carlos Drummond de Andrade

domingo, julho 02, 2017

Nossos desejos vão ficando para trás


Trago para vocês uma fábula para que vocês pensem mais no que deixamos para trás apenas para representar um bom papel.

Quantos desejos e necessidades não matamos apenas para representar bem o papel que esperam de nós.


Devemos viver para realizar um sonho e acreditar na vida eterna!

E quando vivemos para agradar as outras pessoas...

Eu me lembro da fábula do burro !


Um homem ia com o filho levar um burro para vender no mercado.

– O que você tem na cabeça para levar um burro estrada afora sem nada no lombo enquanto você se cansa? – disse um homem que passou por eles. 

Ouvindo aquilo, o homem montou o filho no burro, e os três continuaram seu caminho.
– Ô rapazinho preguiçoso, que vergonha deixar o seu pobre pai, um velho andar a pé enquanto vai
montado! – disse outro homem com quem cruzaram

O homem tirou o filho de cima do burro e montou ele mesmo. 

Passaram duas mulheres e uma disse para a outra:

– Olhe só que sujeito egoísta! Vai no burro e o filhinho a pé, coitado...

Ouvindo aquilo, o homem fez o menino montar no burro na frente dele. 

O primeiro viajante que apareceu na estrada perguntou ao homem:

– Esse burro é seu?

O homem disse que sim. O outro continuou:

– Pois não parece, pelo jeito como o senhor trata o bicho. Ora, o senhor é que devia carregar o burro em lugar de fazer com que ele carregasse duas pessoas.
Na mesma hora o homem amarrou as pernas do burro num pau, e lá se foram pai e filho aos tropeções carregando o animal para o mercado.

Quando chegaram, todo mundo riu tanto que o homem, enfurecido, jogou o burro no rio, pegou o filho pelo braço e voltou para casa. 

Do livro: Fábulas de Esopo.
Quem quer agradar todo mundo, no fim, não agrada ninguém e nunca a si mesmo

sexta-feira, junho 30, 2017

Oração Celta


I
Que jamais, em tempo algum,
o teu coração acalente ódio.

Que o canto da maturidade
jamais asfixie a tua criança interior.

Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.

Que as perdas do teu caminho
sejam sempre encaradas como lições de vida.

Que a musica seja tua companheira
de momentos secretos contigo mesmo.

Que os teus momentos de amor contenham a magia
de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis
olhando a luz da vida em cada amanhecer.

Que cada dia seja um novo recomeço,
onde tua alma dance na luz.

Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas
de tua passagem em cada coração.

Que em cada amigo o teu coração faça festa,
que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.

Que em teus momentos de solidão e cansaço,
esteja sempre presente em teu coração
a lembrança de que tudo passa e se transforma,
quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente,
para que tu percebas a ternura invisível,
tocando o centro do teu ser eterno.

Que um suave acalento te acompanhe, na terra ou no espaço,
e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.

Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!

Que os teus pensamentos e os teus amores,
o teu viver e a tua passagem pela vida,
sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.

Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto,
viajando eternamente no centro do teu ser.

Que este amor transforme os teus dramas em luz,
a tua tristeza em celebração,
e os teus passos cansados
em alegres passos de dança renovadora.

Que jamais,
em tempo algum,
tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.

Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!




II

Que a estrada se abra à sua frente,

Que o vento sopre levemente às suas costas,

Que o sol brilhe morno e suave em sua face,

Que a chuva caía de mansinho em seus campos...

E, até que nos encontremos de novo,

Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.




III

Que despertes para o mistério de estar aqui
e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.

Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.

Que respondas ao chamado do teu Dom
e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.

Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante
e que a ansiedade jamais te ronde.

Que a tua dignidade exterior
reflita uma dignidade interior da alma.

Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos
que não buscam atenção.

Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.

Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada
tecida em torno do cerne do assombro.


 Deus nos Abençoe

terça-feira, junho 27, 2017

Recado aos amigos distantes - Cecília Meireles

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.



Cecília Meireles 
Poemas (1951)

Aniversário - Fernando Pessoa

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, de ser inteligente para entre a família, e de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, o que fui de coração e parentesco. 

O que fui de serões de meia-província,o que fui de amarem-me e eu ser menino, o que fui ... ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… 
A que distância!… (Nem o acho…) 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, pondo grelado nas paredes…

O que eu sou hoje 
(e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), o que eu sou hoje é terem vendido a casa,é terem morrido todos,é estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, por uma viagem metafísica e carnal, com uma dualidade de eu para mim…

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, o aparador com muitas coisas - doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado - , as tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, no tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Fernando Pessoa
como Álvaro de Campos em 15/10/1929, sofria... com o implacável tempo.

Tudo é agora, o mais, é nada!
Adaptação do Prince Cristal, que agradece a Papai do Céu.

domingo, junho 25, 2017

Para ser grande, sê inteiro - Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive.

Fernando Pessoa

sábado, junho 24, 2017

Quadrilha - Carlos Drummond


João amava Teresa 
que amava Raimundo
que amava Maria 
que amava Joaquim 
que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se
e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, junho 23, 2017

Lídia - Fernando Pessoa

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


Fernando Pessoa
como Ricardo Reis 12-6-1914

domingo, junho 11, 2017

Alquimia - Mario Quintana

Naquela mistura
fumegante e colorida
que a pá não pára de agitar
vê-se o infinito olhar de um morimbundo
o primeiro olhar de um primeiro amor
um trem a passar numa gare deserta
uma estrela remota um pincenez perdido
o sexo do outro sexo
a mágica de um santo carregando sua própria cabeça
e de tudo finalmente
evola-se o poema daquele dia
que fala em coisa muito diferente…


Mário Quintana
Quadro Empress Elisabeth of Austria in Courtly Gala Dress with Diamond Stars (detail), 1865, 
Por Franz Xaver Winterhalter (German, 1805–1873).

terça-feira, junho 06, 2017

Papai do Céu - Prince Cristal


Papai do céu, neste dia que te escrevo, venho te pedir a paz, a sabedoria e a força que desejo. 

Quero olhar o mundo com amor, ser paciente, compreensivo e ver além das aparências, como o senhor.

Papai do céu, protege meus ouvidos de toda a maldade e firma meus passos no caminho da verdade. 

Que me abençoe e encha com amor meu espirito e coração, e meu cérebro com melhor visão.

Papai do céu, que todos que se chegarem a mim, percebam tua afável e doce presença, com uma sensação intensa e um delicioso sabor de mel.



Agradeço a quem visita o Prince Cristal que dia 3/6 completou 11 anos de existência ! 

domingo, maio 14, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 18 - Pablo Neruda

Aqui te amo nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento a lua fosforesce sobre as águas errantes andam dias iguais a perseguir-me.

Desperta-se a névoa em dançantes figuras. Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso. Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.

Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho. Às vezes amanheço e até a alma está úmida. Soa, ressoa o mar ao longe.

Este é um porto. Aqui te amo. Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte. Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas. Às vezes vão meus beijos nesses navios graves que correm pelo mar onde nunca chegam.

Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde. A minha vida cansa-se inutilmente faminta. Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.

O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.Mas a noite aparece e começa a cantar-me a lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olha-me com os teus olhos as estrelas maiores. E como eu te amo, os pinheiros no vento querem cantar o teu nome com as folhas de arame.

Pablo Neruda

quarta-feira, maio 10, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 15 - Pablo Neruda


Gosto de ti calada porque estás como ausente e me ouves de longe, e esta voz não te toca.

Parece que os teus olhos foram de ti voando e parece que um beijo fechou a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma tu emerges das coisas cheias da alma minha.
 
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma e pareces-te com a palavra melancolia.

Gosto de ti calada e estás como distante e estás como queixando-te, borboleta em arrulho.

E ouves-me de longe, e esta voz não te alcança: vais deixar que eu me cale com o silêncio teu.

Vais deixar que eu te fale também com o teu silêncio claro como uma lâmpada, simples como um anel.

Tu és igual à noite, calada e constelada.  
O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e tão simples.

Gosto de ti calada porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se houvesses morrido.

Uma palavra então, um teu sorriso bastam.

E eu estou alegre, alegre porque não é verdade.

domingo, maio 07, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 14 - Pablo Neruda

Brincas todos os dias com a luz do Universo.

Sutil visitadora, chegas na flor e na água.

És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mão todos os dias.

Com ninguém te pareces desde que eu te amo.

Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.

Quem escreve o teu nome com letras de fumo entre as estrelas do sul?

Ah, deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias.

Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.

O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.

Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.

Aqui despe-se a chuva.

Passam fugindo os pássaros.

O vento.

O vento.

Eu só posso lutar contra a força dos homens.

O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.

Tu estás aqui. Ah tu não foges.

Tu responder-me-às até ao último grito.

Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.

Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos.

Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,

e tens até os seios perfumados.

Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.

O que te haverá doído acostumares-te a mim,

à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.

Vimos arder tantas vezes a estrela d’alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos em leques rodoiantes.

As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.

Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.

Creio-te mesmo dona do Universo.

Vou trazer-te das montanhas flores alegres, “copihues”,
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.


Pablo Neruda

quarta-feira, maio 03, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 13 - Pablo Neruda

Eu fui marcando com cruzes de fogo
o atlas branco do teu corpo.

A boca era uma aranha que corria a esconder-se.

Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.

Histórias para contar-te à beira do crepúsculo

boneca triste e meiga, para que não estivesses triste.

Um cisne, uma árvore, algo longínquo e alegre.

O tempo da vindima, o tempo maduro e frutífero.

Eu que vivi num porto que era de onde te amava.

A solidão percorrida de sonho e silêncio.

Encurralado entre o mar e a tristeza.

Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.

Entre lábios e a voz, algo vai já morrendo.

Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de esquecimento.

Da mesma forma que as redes não retêm a água.

Boneca minha, quase nem ficam gotas tremendo.

Mesmo assim algo canta entre estas palavras fugazes.

Algo canta, algo sobe até à minha ávida boca.

Oh poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.

Cantar, arder, fugir, como um campanário nas mãos de um louco.

Triste ternura minha, mudas-te em quê de repente?

Quando eu cheguei ao vértice mais atrevido e frio fecha-se meu coração como uma flor noturna.

domingo, abril 30, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 12 - Pablo Neruda

Para o meu coração basta o teu peito
para a tua liberdade as minhas asas.

Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a minha alma. 

És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.

Minas o horizonte com a tua ausência.

Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.

Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.

Eu acordei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormia na tua alma


Pablo Neruda
do livro 20 poemas de amor

quarta-feira, abril 26, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 11 - Pablo Neruda


Quase fora do céu fundeia entre dois montes uma metade da lua.

Girante, errante noite, a cavadora de olhos.

Quantas estrelas haverá estilhaçadas no charco.

Faz uma cruz de luto entre os meus olhos, foge.

Frágua de metais azuis, noites das caladas lutas, o meu coração dá voltas como um volante louco.

Moça vinde de tão longe, trazida de tão longe, às vezes refulge o seu olhar debaixo do céu.

Queixume, tempestade, remoinho de fúria, passa por sobre o meu coração sem te deteres.

Vento dos sepulcros, leva, despedaça, dispersa a tua raiz sonolenta.

Arranca as grandes arvores do outro lado dela.

Porém tu, moça clara, pergunta de fumo, espiga.

Era a que ia formando o vento com folhas iluminadas.

Por trás das montanhas noturnas, branco lírio de incêndio, ah nada posso dizer! 

Era feita de todas as coisas.

Ansiedade que fendeste o meu peito à facada, são horas de seguir outro caminho, onde ela não sorria.

Tempestade que enterrou os sinos, voltear turvo de borrascas para que tocá-la agora, para que entristecê-la.

Ai seguir o caminho que se afasta de tudo, onde não seja emboscada a angústia, a morte, o inverno,
com os olhos abertos entre o orvalho.

domingo, abril 23, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 10 - Pablo Neruda

Também este crepúsculo nós perdemos.

Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas enquanto a noite azul caia sobre o mundo.

Olhei da minha janela a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
para essa tristeza que tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?

Porque vem até mim todo o amor de repente
Quando me sinto triste, e te sinto tão longe?

Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo e como um cão frio rodou a minha capa aos pés.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

Pablo Neruda

quarta-feira, abril 19, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 9 - Pablo Neruda


Ébrio de terebintina e longos beijos, estival, o veleiro das rosas eu dirijo, dobrado para a morte do finíssimo dia, cimentado no sólido frenesi marinho.

Pálido e amarrado à minha água devorante passo no azedo cheiro do clima descoberto, vestido ainda de cinzento e sons amargos, e uma cimeira triste de abandonada espuma.

Vou, duro de paixões, montado na minha onda, única, lunar, solar, ardente e frio, repentino, adormecido na garganta das afortunadas ilhas brancas e doces como nádegas frescas.

Treme na úmida noite o meu vestido de beijos loucamente carregado de elétricas gestões, de modo heroico dividido em sonhos e embriagadoras rosas exercitando-se em mim.

Contra a corrente, no meio das ondas externas,o teu paralelo corpo aperta-se nos meus braços

como um peixe infinitamente amarrado à minha alma rápido e lento na energia sub celeste.

domingo, abril 16, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 7 - Pablo Neruda

Inclinado nas tardes lanço as minhas tristes redes

aos teus olhos oceânicos.

Ali se estira e arde na mais alta fogueira
a minha solidão que esbraceja como um náufrago.

Faço rubros sinais sobre os teus olhos ausentes
que ondeiam como o mar à beira de um farol.

Somente guardas trevas, fêmea distante e minha,
do teu olhar emerge às vezes o litoral do espanto.

Inclinado nas tardes deito as minhas tristes redes
a esse mar que sacode os teus olhos oceânicos.

Os pássaros noturnos debicam as primeiras estrelas
que cintilam como a minha alma quando te amo.

Galopa a noite na sua égua sombria
derramando espigas azuis por sobre o campo.

quarta-feira, abril 12, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 6 - Pablo Neruda

Recordo-te como eras no outono passado.
Eras a boina cinzenta e o coração em calma.

Nos teus olhos lutavam as chamas do crepúsculo.
E as folhas caíam na água da tua alma.


Fincada nos meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhia a tua voz lenta e em calma.


Fogueira de estupor onde a minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre a minha alma.


Sinto viajar os teus olhos e é distante o outono:
boina cinzenta, voz de pássaro e coração de casa
para onde emigravam os meus profundos desejos
e caíam os meus beijos alegres como brasas.


Céu visto de um navio. Campo visto dos montes:
a lembrança é de luz, de fumo, de lago em calma!


Para lá dos teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam na tua alma.

domingo, abril 09, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 4 - Pablo Neruda


É a manhã cheia de tempestade

no coração do verão.

Como lenços brancos de adeus viajam as nuvens
que o vento sacode com as viageiras mãos. 

Inumerável coração do vento 
pulsando sobre o nosso silêncio apaixonado. 

Zumbindo entre as árvores, orquestral e divino, 
como uma língua cheia de guerras e de cantos. 

Vento que leva em rápido roubo a ramaria 
e desvia as flechas latentes dos pássaros. 

Vento que a derruba em onda sem espuma
e substância sem peso, e fogos inclinados. 

Despedaça-se e submerge o seu volume de beijos 
combatido na porta do vento do verão. 

Pablo Neruda

quarta-feira, abril 05, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 3 - Pablo Neruda

Ah vastidão de pinheiros,
rumor de ondas quebrando,
lento jogo de luzes, sino tão solitário,
crepúsculo caindo nos olhos, boneca,
búzio terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e a alma foge-me neles
como tu desejares e para onde tu quiseres.

Marca-me o caminho no teu arco de esperança
e soltarei em delírio a minha revoada de flechas.

Em torno de mim já vejo a tua cintura de névoa
e o teu silêncio acossa as minhas horas perseguidas,
e és tu com os teus braços de pedra transparente
onde ancoram meus beijos e a úmida ânsia faz ninho.

Ah a tua voz misteriosa que o amor escurece e dobra
no entardecer ressoante e morrendo!

Assim em horas profundas sobre os campos eu vi
dobrarem-se as espigas na boca do vento.

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.

Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.


Pablo Neruda

domingo, abril 02, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 2 - Pablo Neruda

Na sua chama mortal 
te envolve a luz.

Absorta, pálida do assim postada contra as velhas hélices do crepúsculo que em torno de ti dá voltas.

Muda, minha amiga, sozinha na solidões desta hora de mortes e cheia das vidas do fogo, herdeira pura do dia destruído.

Do sol desabam uvas no teu vestido escuro.

Da noite as grandes raízes crescem de súbito na tua alma, e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas, de modo que um povo pálido e azul de ti recém-nascido se alimenta.

Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava do círculo que em negro e doirado acontece: erguida, tenta e alcança uma criação tão viva que morrem suas flores, e cheia é de tristeza.

sábado, abril 01, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 1 - Pablo Neruda

Este mês o Prince Cristal homenageia Pablo Neruda
Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas, assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.

O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti e faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel.

De mim fugiam os pássaros, e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.

Para sobreviver forjei-te como uma arma, como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.

Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.

Ah, os copos do peito!

Ah os olhos de ausência!

Ah as rosas do púbis!

Ah a tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.

Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!

Escuros regos onde a sede eterna continua, e a fadiga continua, e a dor infinita.


Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada é um livro de poesia do poeta chileno Pablo Neruda, onde se cruza o erotismo da poesia que celebra o corpo da mulher, com o gosto que Neruda tem pela natureza. 

Nestes poemas, é frequente que os dois planos se cruzem, havendo uma certa identificação entre o corpo feminino e o mundo natural (as paisagens, a terra...).

Neruda escreveu estes poemas quando tinha cerca de vinte anos, mas são alguns dos mais celebrados da sua obra.

O livro foi publicado em 15 de junho de 1924.