domingo, setembro 17, 2017

Primavera - Fernando Pessoa

Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos 
até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome;
e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, 
andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos 
ver-te colher flores.

Eu já te vejo amanhã a colher flores 
comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e
andares comigo no campo a colher flores,

Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

Fernando Pessoa
como Alberto Caieiro

domingo, setembro 10, 2017

Livro do Desassossego - Fernando Pessoa

Por que hás-de tentar ser como os outros, se estás condenado a ti?

Para que hás-de rir, se, quando ris, a tua própria alegria sincera é falsa, porque nasce de te esqueceres de quem és? 

Para que hás-de chorar, se sentes que de nada te serve, e choras mais as lágrimas não te consolarem, que porque as lágrimas te consolem?

Se és feliz quando ris, quando ris venci; se então és feliz, porque te não lembras de quem és, quão mais feliz serás comigo, onde não mais te lembrarás de nada?

Se descansas perfeitamente, se acaso dormes sem sonhar, como não descansarás no meu leito, onde o sono nunca tem sonhos?

Se um momento te elevas, porque vês a Beleza, e te esqueces de ti e da vida, como não te elevarás no meu palácio, cuja beleza noturna não sofre discordância, nem idade, nem corrupção; nas minhas salas onde nenhum vento perturba os reposteiros, nenhum pó cobre os espaldares, nenhuma luz desbota, pouco a pouco, os veludos e os estofos, nenhum tempo amarelece a brancura dos ornatos brancos.

Vem ao meu carinho, que não sofre mudança; ao meu amor, que não tem cessação! Bebe da minha taça, que não se esgota, o néctar supremo que não enjoa nem amarga, que não desgosta nem inebria. 

Contempla, da janela do meu castelo, não o luar e o mar, que são coisas belas e por isso imperfeitas; mas a noite vasta e materna, o esplendor indiviso do abismo profundo!

Nos meus braços esquecerás o próprio caminho doloroso que te trouxe a eles.

Fernando Pessoa como Bernardo Soares
 Livro do desassossego
Recomendação de leitura do Prince para todas as pessoas que buscam seu verdadeiro eu.

domingo, setembro 03, 2017

Inconstância - Florbela Espanca

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…
E este amor que assim me vai fugindo

É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…


Florbela Espanca

domingo, agosto 27, 2017

Em horas inda Louras, Lindas - Fernando Pessoa

Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas,
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas. 

Mas em torno à tarde se entorna 
A atordoar o ar que arde 
Que a eterna tarde já não torna ! 
E o tom de atoarda todo o alarde 
Do adornado ardor transtorna 
No ar de torpor da tarda tarde. 

E há nevoentos desencantos 
Dos encantos dos pensamentos 
Nos santos lentos dos recantos 
Dos bentos cantos dos conventos... 
Prantos de intentos, lentos, tantos 
Que encantam os atentos ventos. 

Fernando Pessoa 
do livro Cancioneiro

domingo, agosto 20, 2017

Não sei... Se a vida é curta - Cora Coralina

Não sei... Se a vida é curta 
Ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido, 
se não tocamos o coração das pessoas. 
Muitas vezes basta ser: 
Colo que acolhe, 
Braço que envolve, 
Palavra que conforta, 
Silêncio que respeita, 
Alegria que contagia, 
Lágrima que corre, 
Olhar que acaricia, 
Desejo que sacia, 
Amor que promove. 
E isso não é coisa de outro mundo, 
É o que dá sentido à vida. 
É o que faz com que ela 
Não seja nem curta, 
Nem longa demais, 
Mas que seja intensa, 
Verdadeira, pura... 
Enquanto durar 

Cora Coralina

quarta-feira, agosto 16, 2017

Palavras para a minha mãe - Jose L. Peixoto


Mãe, tenho pena.

Esperei sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.

Sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

Pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

Às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

Lê isto: mãe, amo-te.

Eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.


José Luís Peixoto
 in “A Casa, a Escuridão”

domingo, agosto 13, 2017

Eros e Psique - Fernando Pessoa


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Poesia de Fernando Pessoa.
Quadro de Bouguereau
Le ravissement de Psyche.

domingo, agosto 06, 2017

Ardo - Nietzche

"Sim, sei de onde venho!
Ardo para me consumir.

Aquilo em que toco torna-se luz,
carvão aquilo que abandono.

Sou certamente labareda!"



Friedrich Nietzsche

domingo, julho 30, 2017

Ausência - Fernando Pessoa

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo,
imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo,
não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.


Fernando Pessoa

sábado, julho 22, 2017

Magnificat - Fernando Pessoa

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?


Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.


As estrellas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.


O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.


Quando é que passará este drama sem theatro,
Ou este theatro sem drama,
E recolherei a casa?


Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida,
Quem tens lá no fundo?


É Esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.


Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma: será dia!



Fernando Pessoa 
como Álvaro de Campos em 07/11/1933

quarta-feira, julho 19, 2017

Meu Filho - Prince Cristal

Escolhi este dia para te homenagear chegando aos 26 anos. 

Olho nos seus olhos e vejo o mar. 

E na sua ausência a maior riqueza passar.

Estou distante e tão perto, mas sempre a te amar.

Obrigado por me ajudar a ser simples, escrever e cantar.

Triste por não tê-lo tanto tempo na visão, mas... 

Feliz por tê-lo no coração.

Mesmo distante você me torna grande e especial.

E algum dia imortal!

do seu...

Pai

domingo, julho 16, 2017

Último Poema - Manuel Bandeira


Assim eu quereria o meu último poema ...

Que fosse terno dizendo as coisas 
mais simples e menos intencionais 

Que fosse ardente como um soluço 
sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores 
quase sem perfume 

A pureza da chama em que se consomem 
os diamantes mais límpidos 

A paixão dos suicidas 
que se matam sem explicação. 

Manuel Bandeira

domingo, julho 09, 2017

Carlos Drummond de Andrade

Poeta, contista e cronista mineiro 
(1902-1987).

Considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura latino-americana.

Nasce e passa a infância numa fazenda em Itabira.

Estuda em Belo Horizonte e em Nova Friburgo (RJ).

Forma-se em Farmácia (1925) em Ouro Preto, mas não exerce a profissão.

Volta a Belo Horizonte, onde frequenta as rodas de escritores.

Integra o grupo que funda A Revista, publicação literária de tendência nacionalista que se torna o veículo mais importante do modernismo mineiro.

Em 1926, entra para o jornalismo no Diário de Minas.

Lança o primeiro livro, Alguma Poesia, em 1930 e, quatro anos depois, assume a chefia de gabinete do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Permanece no serviço público até a aposentadoria.

Ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) no início dos anos 40, escreve poesias de fundo social, como Sentimento do Mundo (1940) e A Rosa do Povo (1945). Mas a indignação pelas desigualdades sociais não lhe tira o profundo lirismo, o senso de humor e a emoção contida.

A partir de Claro Enigma (1951), volta a registrar o vazio da vida humana e o absurdo do mundo.

Em 1954 passa a escrever crônicas no Correio da Manhã e, em 1969, no Jornal do Brasil. Entre suas obras estão Lição de Coisas (1962), Os Dias Lindos (crônicas, 1978) e Boca de Luar (crônicas, 1984). (Dados extraídos do Almanaque Abril Cultural 1997)

"Entre as diversas formas de mendicância , a mais humilhante é a do amor implorado."

"Existem muitos motivos para não se amar uma pessoa, mas apenas um para amá-la."

"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo"

"Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida."

"O problema não é inventar. É ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente."

"Eu nunca tive pretensões a nada na vida, nunca pretendi ser rico ou poderoso e nem mesmo feliz. Na medida do possível, acho que vivi uma vida tranquila. Posso ter errado muitas vezes, mas valeu a pena. Foi bom."

Carlos Drummond de Andrade

domingo, julho 02, 2017

Nossos desejos vão ficando para trás


Trago para vocês uma fábula para que vocês pensem mais no que deixamos para trás apenas para representar um bom papel.

Quantos desejos e necessidades não matamos apenas para representar bem o papel que esperam de nós.


Devemos viver para realizar um sonho e acreditar na vida eterna!

E quando vivemos para agradar as outras pessoas...

Eu me lembro da fábula do burro !


Um homem ia com o filho levar um burro para vender no mercado.

– O que você tem na cabeça para levar um burro estrada afora sem nada no lombo enquanto você se cansa? – disse um homem que passou por eles. 

Ouvindo aquilo, o homem montou o filho no burro, e os três continuaram seu caminho.
– Ô rapazinho preguiçoso, que vergonha deixar o seu pobre pai, um velho andar a pé enquanto vai
montado! – disse outro homem com quem cruzaram

O homem tirou o filho de cima do burro e montou ele mesmo. 

Passaram duas mulheres e uma disse para a outra:

– Olhe só que sujeito egoísta! Vai no burro e o filhinho a pé, coitado...

Ouvindo aquilo, o homem fez o menino montar no burro na frente dele. 

O primeiro viajante que apareceu na estrada perguntou ao homem:

– Esse burro é seu?

O homem disse que sim. O outro continuou:

– Pois não parece, pelo jeito como o senhor trata o bicho. Ora, o senhor é que devia carregar o burro em lugar de fazer com que ele carregasse duas pessoas.
Na mesma hora o homem amarrou as pernas do burro num pau, e lá se foram pai e filho aos tropeções carregando o animal para o mercado.

Quando chegaram, todo mundo riu tanto que o homem, enfurecido, jogou o burro no rio, pegou o filho pelo braço e voltou para casa. 

Do livro: Fábulas de Esopo.
Quem quer agradar todo mundo, no fim, não agrada ninguém e nunca a si mesmo

sexta-feira, junho 30, 2017

Oração Celta


I
Que jamais, em tempo algum,
o teu coração acalente ódio.

Que o canto da maturidade
jamais asfixie a tua criança interior.

Que o teu sorriso seja sempre verdadeiro.

Que as perdas do teu caminho
sejam sempre encaradas como lições de vida.

Que a musica seja tua companheira
de momentos secretos contigo mesmo.

Que os teus momentos de amor contenham a magia
de tua alma eterna em cada beijo.

Que os teus olhos sejam dois sóis
olhando a luz da vida em cada amanhecer.

Que cada dia seja um novo recomeço,
onde tua alma dance na luz.

Que em cada passo teu fiquem marcas luminosas
de tua passagem em cada coração.

Que em cada amigo o teu coração faça festa,
que celebre o canto da amizade profunda que liga as almas afins.

Que em teus momentos de solidão e cansaço,
esteja sempre presente em teu coração
a lembrança de que tudo passa e se transforma,
quando a alma é grande e generosa.

Que o teu coração voe contente nas asas da espiritualidade consciente,
para que tu percebas a ternura invisível,
tocando o centro do teu ser eterno.

Que um suave acalento te acompanhe, na terra ou no espaço,
e por onde quer que o imanente invisível leve o teu viver.

Que o teu coração sinta a presença secreta do inefável!

Que os teus pensamentos e os teus amores,
o teu viver e a tua passagem pela vida,
sejam sempre abençoados por aquele amor que ama sem nome.

Aquele amor que não se explica, só se sente.
Que esse amor seja o teu acalento secreto,
viajando eternamente no centro do teu ser.

Que este amor transforme os teus dramas em luz,
a tua tristeza em celebração,
e os teus passos cansados
em alegres passos de dança renovadora.

Que jamais,
em tempo algum,
tu esqueças da Presença que está em ti e em todos os seres.

Que o teu viver seja pleno de Paz e Luz!




II

Que a estrada se abra à sua frente,

Que o vento sopre levemente às suas costas,

Que o sol brilhe morno e suave em sua face,

Que a chuva caía de mansinho em seus campos...

E, até que nos encontremos de novo,

Que os Deuses lhe guardem na palma de Suas mãos.




III

Que despertes para o mistério de estar aqui
e compreendas a silenciosa imensidão da tua presença.

Que tenhas alegria e paz no templo dos teus sentidos.
Que recebas grande encorajamento quando novas fronteiras acenam.

Que respondas ao chamado do teu Dom
e encontre a coragem para seguir-lhe o caminho.

Que a chama da raiva te liberte da falsidade.
Que o ardor do coração mantenha a tua presença flamejante
e que a ansiedade jamais te ronde.

Que a tua dignidade exterior
reflita uma dignidade interior da alma.

Que tenhas vagar para celebrar os milagres silenciosos
que não buscam atenção.

Que sejas consolado na simetria secreta da tua alma.

Que sintas cada dia como uma dádiva sagrada
tecida em torno do cerne do assombro.


 Deus nos Abençoe

terça-feira, junho 27, 2017

Recado aos amigos distantes - Cecília Meireles

Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.

Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.

Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.

Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.

Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.



Cecília Meireles 
Poemas (1951)

Aniversário - Fernando Pessoa

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

 No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, de ser inteligente para entre a família, e de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, o que fui de coração e parentesco. 

O que fui de serões de meia-província,o que fui de amarem-me e eu ser menino, o que fui ... ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui… 
A que distância!… (Nem o acho…) 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, pondo grelado nas paredes…

O que eu sou hoje 
(e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), o que eu sou hoje é terem vendido a casa,é terem morrido todos,é estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, por uma viagem metafísica e carnal, com uma dualidade de eu para mim…

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, o aparador com muitas coisas - doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado - , as tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, no tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Fernando Pessoa
como Álvaro de Campos em 15/10/1929, 
que sofria... com o implacável tempo.

Tudo é agora, o mais, é nada!
Adaptação do Prince Cristal, que agradece a Papai do Céu.

domingo, junho 25, 2017

Para ser grande, sê inteiro - Fernando Pessoa

Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa.

Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive.

Fernando Pessoa

sábado, junho 24, 2017

Quadrilha - Carlos Drummond


João amava Teresa 
que amava Raimundo
que amava Maria 
que amava Joaquim 
que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos,
Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre,
Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se
e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, junho 23, 2017

Lídia - Fernando Pessoa

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


Fernando Pessoa
como Ricardo Reis 12-6-1914

domingo, junho 11, 2017

Alquimia - Mario Quintana

Naquela mistura
fumegante e colorida
que a pá não pára de agitar
vê-se o infinito olhar de um morimbundo
o primeiro olhar de um primeiro amor
um trem a passar numa gare deserta
uma estrela remota um pincenez perdido
o sexo do outro sexo
a mágica de um santo carregando sua própria cabeça
e de tudo finalmente
evola-se o poema daquele dia
que fala em coisa muito diferente…


Mário Quintana
Quadro Empress Elisabeth of Austria in Courtly Gala Dress with Diamond Stars (detail), 1865, 
Por Franz Xaver Winterhalter (German, 1805–1873).

terça-feira, junho 06, 2017

Papai do Céu - Prince Cristal


Papai do céu, neste dia que te escrevo, venho te pedir a paz, a sabedoria e a força que desejo. 

Quero olhar o mundo com amor, ser paciente, compreensivo e ver além das aparências, como o senhor.

Papai do céu, protege meus ouvidos de toda a maldade e firma meus passos no caminho da verdade. 

Que me abençoe e encha com amor meu espirito e coração, e meu cérebro com melhor visão.

Papai do céu, que todos que se chegarem a mim, percebam tua afável e doce presença, com uma sensação intensa e um delicioso sabor de mel.



Agradeço a quem visita o Prince Cristal que dia 3/6 completou 11 anos de existência ! 

domingo, maio 14, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 18 - Pablo Neruda

Aqui te amo nos sombrios pinheiros desenreda-se o vento a lua fosforesce sobre as águas errantes andam dias iguais a perseguir-me.

Desperta-se a névoa em dançantes figuras. Uma gaivota de prata desprende-se do ocaso. Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.

Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho. Às vezes amanheço e até a alma está úmida. Soa, ressoa o mar ao longe.

Este é um porto. Aqui te amo. Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte. Eu continuo a amar-te entre estas frias coisas. Às vezes vão meus beijos nesses navios graves que correm pelo mar onde nunca chegam.

Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os cais quando fundeia a tarde. A minha vida cansa-se inutilmente faminta. Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.

O meu tédio forceja com os lentos crepúsculos.Mas a noite aparece e começa a cantar-me a lua faz girar a sua rodagem de sonho.

Olha-me com os teus olhos as estrelas maiores. E como eu te amo, os pinheiros no vento querem cantar o teu nome com as folhas de arame.

Pablo Neruda

quarta-feira, maio 10, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 15 - Pablo Neruda


Gosto de ti calada porque estás como ausente e me ouves de longe, e esta voz não te toca.

Parece que os teus olhos foram de ti voando e parece que um beijo fechou a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma tu emerges das coisas cheias da alma minha.
 
Borboleta de sonho, pareces-te com a minha alma e pareces-te com a palavra melancolia.

Gosto de ti calada e estás como distante e estás como queixando-te, borboleta em arrulho.

E ouves-me de longe, e esta voz não te alcança: vais deixar que eu me cale com o silêncio teu.

Vais deixar que eu te fale também com o teu silêncio claro como uma lâmpada, simples como um anel.

Tu és igual à noite, calada e constelada.  
O teu silêncio é de estrela, tão longínquo e tão simples.

Gosto de ti calada porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se houvesses morrido.

Uma palavra então, um teu sorriso bastam.

E eu estou alegre, alegre porque não é verdade.

domingo, maio 07, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 14 - Pablo Neruda

Brincas todos os dias com a luz do Universo.

Sutil visitadora, chegas na flor e na água.

És mais do que a pequena cabeça branca que aperto
como um cacho entre as mão todos os dias.

Com ninguém te pareces desde que eu te amo.

Deixa-me estender-te entre grinaldas amarelas.

Quem escreve o teu nome com letras de fumo entre as estrelas do sul?

Ah, deixa-me lembrar como eras então, quando ainda não existias.

Subitamente o vento uiva e bate à minha janela fechada.

O céu é uma rede coalhada de peixes sombrios.

Aqui vêm soprar todos os ventos, todos.

Aqui despe-se a chuva.

Passam fugindo os pássaros.

O vento.

O vento.

Eu só posso lutar contra a força dos homens.

O temporal amontoa folhas escuras
e solta todos os barcos que esta noite amarraram ao céu.

Tu estás aqui. Ah tu não foges.

Tu responder-me-às até ao último grito.

Enrola-te a meu lado como se tivesses medo.

Porém mais que uma vez correu uma sombra estranha pelos teus olhos.

Agora, agora também pequena, trazes-me madressilva,

e tens até os seios perfumados.

Enquanto o vento triste galopa matando borboletas
eu amo-te, e a minha alegria morde a tua boca de ameixa.

O que te haverá doído acostumares-te a mim,

à minha alma selvagem e só, ao meu nome que todos escorraçam.

Vimos arder tantas vezes a estrela d’alva beijando-nos os olhos
e sobre as nossas cabeças destorcem-se os crepúsculos em leques rodoiantes.

As minhas palavras choveram sobre ti acariciando-te.

Amei desde há que tempo o teu corpo de nácar moreno.

Creio-te mesmo dona do Universo.

Vou trazer-te das montanhas flores alegres, “copihues”,
avelãs escuras, e cestos silvestres de beijos.

Quero fazer contigo
o que a primavera faz com as cerejeiras.


Pablo Neruda

quarta-feira, maio 03, 2017

Vinte Poemas de Amor nº 13 - Pablo Neruda

Eu fui marcando com cruzes de fogo
o atlas branco do teu corpo.

A boca era uma aranha que corria a esconder-se.

Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta.

Histórias para contar-te à beira do crepúsculo

boneca triste e meiga, para que não estivesses triste.

Um cisne, uma árvore, algo longínquo e alegre.

O tempo da vindima, o tempo maduro e frutífero.

Eu que vivi num porto que era de onde te amava.

A solidão percorrida de sonho e silêncio.

Encurralado entre o mar e a tristeza.

Calado, delirante, entre dois gondoleiros imóveis.

Entre lábios e a voz, algo vai já morrendo.

Algo com asas de pássaro, algo de angústia e de esquecimento.

Da mesma forma que as redes não retêm a água.

Boneca minha, quase nem ficam gotas tremendo.

Mesmo assim algo canta entre estas palavras fugazes.

Algo canta, algo sobe até à minha ávida boca.

Oh poder celebrar-te com todas as palavras de alegria.

Cantar, arder, fugir, como um campanário nas mãos de um louco.

Triste ternura minha, mudas-te em quê de repente?

Quando eu cheguei ao vértice mais atrevido e frio fecha-se meu coração como uma flor noturna.