O que Sentimos - Fernando Pessoa

O que sentimos, 
não o que é sentido,
É o que temos.

Claro, o inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja inverno na terra, não na mente.

E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.

Fernando Pessoa
como Ricardo Reis

Mestre - Fernando Pessoa

Mestre, são plácidas 
Todas as horas 
Que nós perdemos, 
Se no perdê-las, 
Qual numa jarra, 
Nós pomos flores. 

Não há tristezas 
Nem alegrias 
Na nossa vida. 
Assim saibamos, 
Sábios incautos, 
Não a viver, 

Mas decorrê-la, 
Tranquilos, plácidos, 
Lendo as crianças 
Por nossas mestras, 
E os olhos cheios 
De Natureza ... 

À beira-rio, à beira-estrada, 
Conforme calha, sempre no mesmo 
Leve descanso de estar vivendo. 

O tempo passa, não nos diz nada. 
Envelhecemos. 
Saibamos, quase maliciosos, 
Sentir-nos ir. 

Não vale a pena fazer um gesto. 
Não se resiste ao deus atroz.
Que os próprios filhos devora sempre. 

Colhamos flores. 
Molhemos leves as nossas mãos 
Nos rios calmos, para aprendermos 
Calma também. 

Girassóis sempre 
Fitando o sol, da vida iremos 
Tranquilos,tendo nem o remorso 
De ter vivido. 

Fernando Pessoa como Ricardo Reis em 12/06/1914

A falência do Prazer e do Amor - Fernando Pessoa

O texto é com longo 23 partes, mas recomendo ler ...

I
Beber a vida num trago, e nesse trago
Todas as sensações que a vida dá
Em todas as suas formas
[...]
Dantes eu queria
Embeber-me nas árvores, nas flores,
Sonhar nas rochas, mares, solidões.

Hoje não, fujo dessa idéia louca:
Tudo o que me aproxima do mistério
Confrange-me de horror. Quero hoje apenas
Sensações, muitas, muitas sensações,
De tudo, de todos neste mundo — humanas,
Não outras de delírios panteístas
Mas sim perpétuos choques de prazer
Mudando sempre,
Guardando forte a personalidade
Para sintetizá-las num sentir.

Quero
Afogar em bulício, em luz, em vozes,
— Tumultuárias [cousas] usuais —
o sentimento da desolação
Que me enche e me avassala.

Folgaria
De encher num dia, [...] num trago,
A medida dos vícios, inda mesmo
Que fosse condenado eternamente
Loucura! — ao tal inferno,
A um inferno real.

II
Alegres camponeses, raparigas alegres e ditosas,
Como me amarga n'alma essa alegria!
[...]
Nem em criança, ser predestinado,
Alegre eu era assim; no meu brincar,
Nas minhas ilusões da infância, eu punha
O mal da minha predestinação.
[...]
pouco importa!
Sofrer mais já não posso. Pois verei
Eu, Fausto — aqueles que não sentem bem
Toda a extensão da felicidade,
Gozá-la?
[...]
Ferve a revolta em mim
Contra a causa da vida que me fez
Qual sou. E morrerei e deixarei
Neste inundo isto apenas: uma vida
Só prazer e só gozo, só amor,
Só inconsciência em estéril pensamento
E desprezo
[...]
Mas eu como entrarei naquela vida?
Eu não nasci para ela.

III
Melodia vaga
Para ti se eleva
E, chorando, leva
O teu coração,
Já de dor exausto,
E sonhando o afaga.
Os teus olhos, Fausto,
Não mais chorarão.

IV
Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído,
Só sinto um vácuo imenso onde alma tive...
Sou qualquer cousa de exterior apenas,
Consciente apenas de já nada ser...

Pertenço à estúrdia e à crápula da noite
Sou só delas, encontro-me disperso
Por cada grito bêbedo, por cada
Tom da luz no amplo bojo das botelhas.

Participo da névoa luminosa
Da orgia e da mentira do prazer.
E uma febre e um vácuo que há em mim
Confessa-me já morto... Palpo, em torno
Da minha alma, os fragmentos do meu ser
Com o hábito imortal de perscrutar-me.

V
Perdido
No labirinto de mim mesmo, já
Não sei qual o caminho que me leva
Dele à realidade humana e clara
Cheia de luz [...] alegremente
Mas com profunda pesadez em mim
Esta alegria, esta felicidade,
Que odeio e que me fere
[...]
Sinto como um insulto esta alegria
Toda a alegria. Quase que sinto
Que rir, é rir — não de mim, mas, talvez,
Do meu ser.

VI
Toda a alegria me gela, me faz ódio.
Toda a tristeza alheia me aborrece,
Absorto eu na minha, maior muito que outras
[...]
Sinto em mim que a minha alma não tolera
Que seja alguém do que ela mais feliz;
O riso insulta-me, por existir;
Que eu sinto que não quero que alguém ria
Enquanto eu não puder. Se acaso tento
Sentir, querer, só quero incoerências
De indefinida aspiração imensa,
Que mesmo no seu sonho é desmedida ...

VII
tua inconsciência alegre é uma ofensa
para mim. O seu riso esbofeteia-me!
Tua alegria cospe-me na cara!
Oh, com que ódio carnal e espiritual
escarro sobre o que na alma humana
Fria festas e danças e cantigas...
[...]
Com que alegria minha, cairia
Um raio entre eles! Com que pronto
Criaria torturas para eles
Só por rirem a vida em minha cara
E atirarem à minha face pálida
O seu gozo em viver, a poeira — que arda
Em meus olhos — dos seus momentos ocos
De infância adulta e tudo na alegria!
[...]
Ó ódio, alegra-me tu sequer!
Faze-me ver a Morte, roendo a todos,
Põe-me ria vista os vermes trabalhando
Aqueles corpos!
[...]

VIII
Triste horror d'alma, não evoco já
Com grata saudade, tristemente,
Estas recordações da juventude!
Já não sinto saudades, como há pouco
Inda as sentia. Vai-se-me embotando,
Co'a força de pensar, contínuo e árido,
Toda a verdura e flor do pensamento.

Ao recordar agora, apenas sinto,
Como um cansaço só de ter vivido,
Desconsolado e mudo sentimento
De ter deixado atrás parte de mim,
E saudade de não ter saudade,
Saudades dos tempos em que as tinha.

Se a minha infância agora evoco, vejo
— Estranho! — como uma outra criatura
Que me era amiga, numa vaga
Objetivada subjetividade.

Ora a infância me lembra, como um sonho,
Ora a uma distância sem medida
No tempo, desfazendo-me em espanto;
E a sensação que sinto, ao perceber
Que vou passando, já tem mais de horror
Que tristeza
[...]
E nada evoca, a não ser o mistério
Que o tempo tem fechado em sua mão.

Mas a dor é maior!

IX
Ó vestidas razões! Dor que é vergonha
E por vergonha de si-própria cala
A si-mesma o seu nexo! Ó vil e baixa
Porca animalidade do animal,
Que se diz metafísica por medo
A saber-se só baixa ...
[...]
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente!
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
'Stá o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal que ousar não ouso
O que a [besta mais vil] do mundo vil
Obra por maquinismo.

Tanto fechei à chave, aos olhos de outros,
Quanto em mim é instinto, que não sei
Com que gestos ou modos revelar
Um só instinto meu a olhos que olhem ...
[...]
Deus pessoal, Deus gente, dos que creem,
Existe, para que eu te possa odiar!
Quero alguém a quem possa a maldição
Lançar da minha vida que morri,
E não o vácuo só da noite muda
Que me não ouve.

X
O horror metafísico de Outrem!
O pavor de uma consciência alheia
Como um deus a espreitar-me!
Quem me dera
Ser a única [cousa ou] animal
Para não ter olhares sobre mim!

XI
Um corpo humano!
Às vezes eu, olhando o próprio corpo,
Estremecia de terror ao vê-lo
Assim na realidade, tão carnal.

XII
Sinto horror
À significação que olhos humanos
Contém...
[...]
Sinto preciso
Ocultar o meu íntimo aos olhares
E aos perscrutamentos que olhares mostram;
Não quero que ninguém saiba o que sinto,
Além de que o não posso a alguém dizer...

XIII
Com que gesto de alma
Dou o passo de mim até à posse
Do corpo de outros, horrorosamente
Vivo, consciente, atento a mim, tão ele
Como eu sou eu.

XIV
Não me concebo amando, nem dizendo
A alguém "eu te amo" — sem que me conceba
Com uma outra alma que não é a minha
Toda a expansão e transfusão de vida
Me horroriza, como a avaro a ideia
De gastar e gastar inutilmente
Inda que no gastar se [extraia] gozo.

XV
Quando se adoram, vividos,
Dois seres juvenis e naturais
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.

Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.

Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino.

De raivas contra a essência do viver.

XVI
Vendo passar amantes
Nem propriamente inveja ou ódio sinto,
Mas um rancor e uma aversão imensos
Ao universo inteiro, por cobri-los.

XVII
O amor causa-me horror; é abandono,
Intimidade...
Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo
[...]
A consciência, o pensamento aberto
Tornando-o impossível.

E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n’alguém. Horror eu sinto
A que perscrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.

Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber do todo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito de outros homens.
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo —
Horroriza-me: acostumei-me cedo
Nos despimentos do meu ser
A fixar olhos pudicos, conscientes.

Do mais. Pensar em dizer "amo-te"
E "amo-te" só — só isto, me angustia...

XVIII
[...] eu mesmo
Sinto esse frio coração em mim
Admirado de ser um coração
Tão frio está.

XIX
Seria doce amar, cingir a mim
Um corpo de mulher, mais frio e grave
e feito em tudo, transcendentalmente
O pensamento agrada-me, e confrange-me
Do terror de perto, e [junto]
Em sensação ao meu, um outro corpo.
Gelada mão misteriosa cai
Sobre a imaginação [...]

XX
É isto o amor? Só isto?
[...]
Sinto ânsias, desejos,
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma cousa ali
— Fria, pesada, muda — permanece.
[P'ra] isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.

Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma, menos funda e dolorosa,
[Bem] mais terrível raiva
[...]
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.

Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui, e um ódio
Nascido disto, vago e horroroso,
A tudo e todos...

XXI
Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
[...]
Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
[...]
Ah! não perguntes nada; antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse todo com o coração.

Se te vejo não sei quem sou: eu amo.
Se me faltas
[...]
... Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas —
Quando é amar que deves. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
Alguém pra te falar de quem tu amas.
[...]
Quando te vi amei-te já muito antes:
Tornei a achar-te quando te encontrei.

Nasci pra ti antes de haver o mundo.

Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro.
[...]
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma 'strada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.
[...]
Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já longe, mas de longe...
[...]
Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!
— Compreendo-te tanto que não sinto,
Oh coração exterior ao meu!

Fatalidade, filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?
[...]

XXII
Pra que te falar? Ninguém me irmana
Os pensamentos na compreensão.
Sou só por ser supremo, e tudo em mim
É maior.

XXIII 
Reza por mim! A mais não me enterneço. 
Só por mim mesmo sei enternecer-me, 
Soba a ilusão de amar e de sentir em que forçadamente me detive. 
Reza por mim, por mim! Eis a que chega 
A minha tentativa [em] querer amar.

Fernando Pessoa

Ausência - Fernando Pessoa

Mesmo a ausência dela 
é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela 
que não sei como a desejar
Se a não vejo,
imagino-a e sou forte 
como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo,
não sei o que é feito do que sinto 
na ausência dela.

Fernando Pessoa

Isto - Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto

tudo o que escrevo.

Não. Eu simplesmente sinto

com a imaginação. Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,

o que me falha ou finda,

é como que um terraço

sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio

do que não está ao pé,

livre do meu enleio,

Sério de que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa como Bernardo Soares
Quadro de William Bouguereau - Head of a young girl

Ser Feliz - Prince Cristal

Ser feliz é não ser vítima dos seus problemas.

Feliz é o autor da própria história 
que conhece a si mesmo.

Ser feliz é não ter medo dos seus sentimentos.

A despeito de todos os desafios e incompreensões.

É ter coragem para ouvir um não. 

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver.

É agradecer a Deus pelo milagre da vida.

E seguir em frente...

Sempre!

Soneto da perdida esperança - Carlos Drummond

Perdi o bonde e a esperança.

Volto pálido para casa.

A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta 
em que os caminhos se fundem.
 
Todos eles conduzem ao princípio 
do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo ou se 
é alguém que se diverte por que não?
na noite escassa com um insolúvel flautim.
 
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno. 

Carlos Drummond

Cristais - Prince Cristal

Os Cristais são poderosos indivíduos elementais que trazem o equilíbrio natural para as partes físicas, psicológicas e espirituais. Eles representam um poder de natureza superior. 

Os Cristais, desde as culturas antigas do mundo até os dias de hoje, são usados para curar e equilibrar o ser humano. Na cultura antiga da Índia, Grécia e Egito, os Cristais eram usados para energizar remédios e auxiliar na medicina, trazendo a cura para muitas pessoas. 

Lendas dão conta que a antiga civilização da Atlântida possuía técnicas avançadas de controle da energia dos cristais e sua destruição foi motivada pelo uso indevido desta energia. 
Acredita-se que a energia que sai dos Cristais, é um raio vibracional. Estes raios são absorvidos pelo corpo físico, desbloqueando e alinhado os Chakras, que são centros de energia que todos nós possuímos.

Os cristais podem ser usados nas práticas de meditações e visualizações. Eles trazem energia de alta frequência, amplificado e focalizado nas energias naturais do corpo e da mente. 

Cada cristal tem uma função específica, de acordo com seu tamanho e coloração. Os cristais grandes, como por exemplo a Drusa por ser um quartzo de várias pontas, é excelente para as energização de ambientes. 

Se você nunca entrou numa caverna com cristais, recomendo! É uma experiência única! 
Foto de uma drusa de cristal de quartzo

A noite dissolve os homens - Carlos Drummond

A noite desceu. Que noite! 
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tampouco os rumores 
que outrora me perturbavam 

A noite desceu. 
Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos. 
A noite espalhou o medo
e a total incompreensão. 

A noite caiu. 
Tremenda, Sem esperança... 
Os suspiros acusam a presença negra 
que paralisa os guerreiros. 

E o amor não abre caminho na noite. 
a noite é mortal, completa,
sem reticências, 
a noite dissolve os homens,
diz que á inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes cintilantes
nas ruas fardas. 

A noite anoiteceu tudo... 
O mundo não tem remédio... 
Os suicidas tinham razão. 

Carlos Drummond de Andrade

São Miguel - Luca Giordano

Clique na imagem, amplie e veja com detalhes a qualidade desta obra.
Apresento a vocês o quadro do Italiano Luca Giordano (que leva o apelido de Fa Presto, que significa faz rápido) pintado em 1663 com São Miguel.

Esta é a pintura mais famosa e bem realizada acerca de um anjo e esta entre os 10 quadros mais valiosos do planeta. 

A obra mostra uma possível passagem de São Miguel descrito na bíblia, na qual ele derrota Lúcifer e os anjos traidores de Deus. 

Miguel é considerado pelo Cristianismo o anjo mais poderoso e importante, considerado o ‘líder das milícias’ no céu, e foi retratado em diversas pinturas, como nas dos artistas Jean Fouquet e outros pintores que na maioria das vezes demonstra o arcanjo em seu auge ao travar uma batalha. 

Vale destacar a lança extremamente simples de São Miguel e o entorno da sua face, que é a única parte que não faz parte das ‘trevas’.

Para a imagem de Lúcifer analise a parte inferior do quadro e perceba a imagem de um animal com chifres, demonstrando a ‘maldição’ trazida aos anjos que traíram a Deus. 

Amores que aprisionam - Prince Cristal

Existem amores que aprisionam, 
que excedem, 
e desejam para si...

Amores que enlouquecem
E deixam de ser amores... 
que a íris possa ver, 
libertar e verdadeiramente amar.

Ah, só eu sei - Fernando Pessoa

Ah, só eu sei 
Quanto dói meu coração 
Sem fé nem lei, 
Sem melodia, nem razão.

Só eu, só eu, 
E não o posso dizer 
Porque sentir é como o céu 
Vê-se, mas não há nele que ver. 

Fernando Pessoa
Quadro de William Bouguereau - Leveil du Coeur

Hino Nacional - Carlos Drummond

Precisamos descobrir o Brasil! 

Escondido atrás das florestas, 
com a água dos rios no meio, 
o Brasil está dormindo, coitado. 

Precisamos colonizar o Brasil. 
o que faremos importando Francesas 
muito louras, de pele macia, 
Alemãs gordas, russas nostálgicas para 
garçonetes dos restaurantes noturnos. 

E virão sírias fidelíssimas. 
Não convém desprezar as Japonesas..., 
precisamos educar o Brasil. 

Compraremos professores e livros, 
assimilaremos finas culturas, 
abriremos dancings
e subvencionaremos as elites. 

Cada brasileiro terá sua casa 
com fogão e aquecedor elétricos, piscina, 
salão para conferências científicas. 

E cuidaremos do Estado Técnico. 
Precisamos louvar o Brasil. 
Não é só um país sem igual. 

Nossas revoluções são bem maiores 
do que quaisquer outras; nossos erros também. 
E nossas virtudes?
A terra das sublimes paixões... 
os Amazonas inenarráveis...
os incríveis João Pessoas... 

Precisamos adorar o Brasil! 

Se bem que seja difícil caber
tanto oceano e tanta solidão 
no pobre coração já cheio de compromissos... 
se bem que seja difícil compreender
o que querem esses homens, 
por que motivo eles se ajuntaram
e qual a razão de seus sofrimentos. 

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil! 

Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado, 
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos. 

O Brasil não nos quer! Está farto de nós! 

Nosso Brasil é no outro mundo.
Este não é o Brasil. 
Nenhum Brasil existe.
E acaso existirão os brasileiros? 

Carlos Drummond, 1934, Brejo das almas
Poesia extremamente melancólica
e muito adequada aos nossos tempos !

Requiescat - Olavo Bilac

Por que me vens, com o mesmo riso, 
Por que me vens, com a mesma voz, 
Lembrar aquele Paraíso, 
Extinto para nós? 

Por que levantas esta lousa? 
Por que, entre as sombras funerais, 
Vens acordar o que repousa, 
O que não vive mais? 

Ah! esqueçamos, esqueçamos 
Que foste minha e que fui teu: 
Não lembres mais que nos amamos, 
Que o nosso amor morreu! 

O amor é uma árvore ampla, e rica 
De frutos de ouro, e de embriaguez: 
Infelizmente, frutifica 
Apenas uma vez... 

Sob essas ramas perfumadas, 
Teus beijos todos eram meus: 
E as nossas almas abraçadas 
Fugiam para Deus. 

Mas os teus beijos esfriaram. 
Lembra-te bem! lembra-te bem! 
E as folhas pálidas murcharam, 
E o nosso amor também. 

Ah! frutos de ouro, que colhemos, 
Frutos da cálida estação, 
Com que delícia vos mordemos, 
Com que sofreguidão! 

Lembras-te? os frutos eram doces... 
Se ainda os pudéssemos provar! 
Se eu fosse teu... se minha fosses, 
E eu te pudesse amar... 

Em vão, porém, me beijas, louca! 
Teu beijo, a palpitar e a arder, 
Não achará, na minha boca, 
Outro para o acolher. 

Não há mais beijos, nem mais pranto! 
Lembras-te? quando te perdi 
Beijei-te tanto, chorei tanto, 
Com tanto amor por ti, 

Que os olhos, vês? já tenho enxutos, 
E a minha boca se cansou: 
A árvore já não tem mais frutos! 
Adeus! tudo acabou! 

Outras paixões, outras idades! 
Sejam os nossos corações 
Dois relicários de saudades 
E de recordações. 

Ah! esqueçamos, esqueçamos! 
Durma tranqüilo o nosso amor 
Na cova rasa onde o enterramos 
Entre os rosais em flor... 

Olavo Bilac, in "Poesias"

O Inseto - Pablo Neruda

Das tuas ancas aos teus pés 
quero fazer uma longa viagem. 

Sou mais pequeno que um inseto. 
Percorro estas colinas, são da cor da aveia, 
tem trilhos estreitos que só eu conheço, 
centímetros queimados, pálidas perspectivas.

Há aqui um monte. Nunca dele sairei.

Oh que musgo gigante! 
E uma cratera, uma rosa 
de fogo umedecido! 

Pelas tuas pernas desço tecendo uma espiral 
ou adormecendo na viagem e alcanço os teus joelhos 
duma dureza redonda como os ásperos cumes 
dum claro continente. 

Para teus pés resvalo para as oito aberturas 
dos teus dedos agudos, lentos, peninsulares, 
e deles para o vazio do lençol branco 
caio, procurando cego e faminto teu contorno 
de vaso escaldante!

Pablo Neruda
Imagens de Vicent Van Gogh

Inutilmente - Mauro Salles

O silêncio não leva a Deus 
a noite não me transporta para o alto
e o ocaso é um convite à solidão.

Na angústia dos momentos perdidos
o desespero dos minutos sem destino
e a implacável certeza da morte
tudo leva à tua saudade
tua amarga presença
na distância
em que te procuro esquecer
inutilmente.

Mauro Salles

Silêncio - Florbela Espanca

No fadário que é meu, neste penar,
noite alta, noite escura, noite morta,
sou o vento que geme e quer entrar,
sou o vento que vai bater-te a porta...
vivo longe de ti, mas que me importa? 

Se eu já não vivo em mim,
ando a vaguear. 

Em roda a tua casa, 
a procurar beber-te a vez, 
apaixonada, absorta! 

Estou junto a ti e não me vês... 
quantas vezes no livro que tu lês. 

Meu olhar se pousou e se perdeu! 
Trago-te como um filho nos meus braços!

E na sua casa...Escuta! uns leves passos... 
Silêncio! meu amor!...abre!... sou eu!...

Florbela Espanca

Residuo - Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. 
Da rosa ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.

Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato se cobriu. 
Ficaram poucas roupas, 
poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
mas de tudo fica um pouco.

Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço vazio de cigarros,
ficou um pouco.
pois de tudo fica um pouco.

Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa, retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? 
no trem que leva ao norte, 
no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.

Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.

Oh abre os vidros 
de loção e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos,
as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.

Às vezes um botão.
Às vezes um rato.

Carlos Drummond de Andrade